Nascer de novo, longe da pedra

Incentivados pelos familiares a fazer uso de drogas, jovens contam como ganharam uma segunda chance de vida ao optarem voluntariamente pela recuperação na Casa Viva

Por thiago.antunes

Rio - T., 17 anos, jurou aos tios que era a última vez. A ideia era tão chocante que parecia simplesmente imaginária. Mas seguiu à risca o que havia prometido: se trancou num quarto na sexta-feira e passou o final de semana se ‘alimentando’ apenas de crack e cocaína. Era, segundo ele, órfãos de pais, a despedida de uma vida. Na segunda-feira, iria, por vontade própria, para um abrigo de adolescentes dependentes químicos, o Casa Viva. E foi.

De lá para cá, a rotina tem sido consumida, não mais por droga, mas por esperança. “Tia, eu era o provador oficial da boca (de fumo), mas agora estou há duas semanas limpo”, conta T., extasiado com a ‘novidade’. Com ele, estão na casa outros 15 meninos. Ali, há uma chance de eles se restabelecerem. Mas o desafio é diário. Os adolescentes carregam cicratizes de uma realidade que envolve violência nas ruas, tráfico e famílias dilaceradas, quase sempre pelo vício dos pais, como mostra a série ‘Os guetos do crack’, que O DIA publica desde domingo.

Z., 16, está sentado na varanda que dá acesso ao jardim da casa, mantida pela prefeitura. Um grupo joga futebol, e outro tem aulas com uma professora, numa sala dos fundos. Supreendentemente, ele começa a falar. Tem um sorriso tão cativante e terno que é difícil associá-lo a um traficante. Após conseguir escapar de uma operação policial, com uma granada na mão, ele decidiu que era hora de mudar.

A Casa Viva%2C que funciona em Bonsucesso%2C recebe jovens viciados em crack. Os tutores ajudam no processo de reinserção social e na gestão da rotina dos usuáriosMaíra Coelho / Agência O Dia

“Fumava crack e era tão magrinho que tinham que me carregar no colo”, conta Z., que foi induzido pela mãe a começar o uso de drogas. Atualmente, ele faz estágio e recebe bolsa de R$ 350. O dinheiro está sendo usado para construir uma casa. “Esse tipo de iniciativa é incentivado. Mesmo novos, eles precisam de autonomia. São filhos de pais ausentes ou que sofrem também do problema das drogas. O nosso papel é dar a eles um caminho para seguirem sozinhos”, explicou a diretora da Casa Viva, Alice Peçanha.

Mas são meninos que estão ali, em plena fase da paquera, da vaidade, da autoafirmação. E não há como propor uma mudança se isso não for levado em consideração. Então, uma das medidas adotadas no abrigo remete àquela velha estratégia de pais que querem ensinar aos filhos como administrar o dinheiro. Os garotos têm uma espécie de mesada compartilhada. Por mês, a cota é de R$ 1,5 mil. Eles mesmos se reúnem e dizem para os tutores como será aplicada a verba.

Se vão à praia, por exemplo, determinam de quanto será o gasto. E como são jovens vindos de bolsões de pobreza, as realizações chegam a ser ingênuas: picolé mais incrementado de chocolate, um sanduíche na lanchonete da moda, uma blusa comprada no Saara. Quem já viveu no inferno das drogas experimenta cada dia como se fosse sempre um recomeço. Era meio-dia, na passarela 9, da Avenida Brasil, quando P., 21, cruza com uma equipe de acolhimento da prefeitura. Está serelepe, ao lado do pai.

No Canadá%2C o kit crack é distribuído entre usuários nas ruasMaíra Coelho / Agência O Dia

Quem a vê, dificilmente, acredita que desde os 10 anos ela é usuária de crack. Há três meses, a jovem deixou a Cracolândia do Complexo da Maré. Mas admite que a fissura é uma dor que a persegue e a faz ter alucinações de desejo. “Vou mentir? Fico em casa e parece que sinto o cheiro da pedra.É como se ela disesse: ‘vem’, P, estou aqui’. Me escondo, penso em outras coisas, para não ter recaída. Mas é difícil, porque a sensação do fumo é deliciosa”, conta ela, enquanto segue para um centro da prefeitura, onde vai ser encaminhada para retirar documentos.

Apesar de não estar na Casa Viva, a história da jovem não é muito diferente dos outros que moram lá. Aos 10 anos, ela namorava um assaltante de 24 anos. Ele morreu durante um roubo, na Central do Brasil. “Foi quando tudo começou. Aos 11 anos, eu já iniciei com crack. Tive uma vida louca. Engravidei aos 15, 16 e 17 anos. Aos 18, ‘liguei’ (fez laqueadura de trompas). Mas agora, ‘limpa’, tenho certeza de que vou sair desta de vez”.

Dependente de crack, C., 23, também diz que está ‘limpo’, mas, enquanto conta sua história, o cheiro do álcool denuncia a recaída. A bebida sempre foi um aliado no consumo da pedra. O vício foi incentivado pelos pais, desde muito jovem. Eram eles que pediam que o filho comprasse cocaína na boca. “Às vezes, eu fazia uso para protegê-los. Eu mesmo consumia o que era para os dois. Eu mesmo me matava para que isso não acontecesse com eles”, conta o rapaz.

No Brasil, o tratamento de usuários ainda é repleto de polêmicas, e o chamado ‘uso’ assistido, como acontece no Canadá, é uma alternativa praticamente improvável de ser implantada por aqui. Lá, kits com utensílios para fumar as pedras são distribuídos nas ruas, para reduzir a violência e incidência de doenças transmissivéis, como a tuberculose.

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