Caso Amarildo: Laudo confirma que soldado de UPP fingiu ser traficante

Policial se passou por Catatau para atribuir desaparecimento de pedreiro ao tráfico da Rocinha

Por thiago.antunes

Rio - Um laudo de exame de voz do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), anexado ao processo do caso Amarildo na última sexta-feira, reforça as provas apresentadas até o momento pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) sobre o desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza, torturado e morto no dia 14 de julho do ano passado por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha.

O resultado vai na mesma direção de parecer técnico realizado pela Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI) do MP, que identificava como sendo de um dos denunciados, o soldado Marlon Campos Reis, a voz do homem que ligou para outro policial fingindo ser o traficante Thiago da Silva Neris, conhecido como Catatau, na intenção de atribuir ao tráfico da região a resposabilidade pelo desaparecimento de Amarildo. Na ligação, Marlon faz supostas ameaças e diz que já “botou o Boi (apelido do pedreiro) na sua conta”.

Marlon sabia que sua ligação estava sendo monitorada, por ordem judicial, porque efetuou ligação para um celular de outro policial que sabia estar grampeado na chamada Operação Paz Armada. Mas a versão inicial de que a voz seria do traficante foi logo descartada por um laudo da Polícia Civil.

Amarildo%3A 25 policiais respondem pelo crime%3B 12 estão na cadeiaReprodução

Em seguida, nova análise feita pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (DEDIT) da CSI, comparando a voz dos 34 PMs citados no processo, descobriu que o soldado Marlon foi o autor da ligação, acompanhado do soldado Vital. Com o telefone monitorado, eles foram a Higienópolis fazer a ligação. A interceptação dos celulares particulares dos dois também identificou que eles estavam na mesma Estação de Rádio Base da ligação.

O recente laudo do ICCE aponta outras convergências com a análise anterior da DEDIT, como quando Marlon pronuncia a palavra “nove”, apontando total identificação na comparação de vozes. A perícia diz também que, na análise comparativa, “foram observadas nestas características vocais alguns elementos de convergência entre as amostras de voz do locutor questionado e a voz suspeita” e ainda que “a análise da fala questionada indicava a possibilidade de disfarce da voz do falante”.

Segundo o laudo do ICCE, “os exames periciais foram realizados através de comparações perceptuais fundamentais nas características linguísticas e sociolinguísticas, bem como de outros elementos informativos obtidos a partir dos áudios questionados e a relação destes com o réu. Foram avaliadas também as características acústicas dependentes do locutor obtidas da voz do suspeito e da voz questionada”.

O processo do caso Amarildo, que tramita na 35ª Vara Criminal, vai para a fase de alegações finais. Em outubro de 2013, a Justiça recebera denúncia do MP contra 25 policiais por tortura (oito deles na modalidade omissiva), 17 por ocultação de cadáver, 13 por formação de quadrilha e quatro por fraude processual.

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