Cerca de 600 alunos ficam sem aulas no dia seguinte da morte de Tuchinha

Seeduc confirma que Ciep Nação Mangueirense não abriu as portas. Sepultamento do ex-traficante será em Botafogo

Por paulo.gomes

Rio - Cerca de 600 alunos estão sem aulas nesta quarta-feira, na Mangueira, Zona Norte, no dia seguinte a morte do ex-traficante Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha. De acordo com a Secretaria de Estado de Educação, as aulas do Ciep 241 - Nação Mangueirense foram suspensas "no sentido de garantir a integridade física e moral de seus alunos, professores e funcionários. Os conteúdos das aulas perdidas serão repostos". Já a Secretaria Municipal de Educação disse que as unidades estão funcionando, mas que em apenas uma escola os próprios alunos não compareceram.

No dia seguinte ao assassinato de Francisco Paulo Testas Monteiro%2C o Tuchinha%2C o policiamento na Mangueira foi reforçadoSeverino Silva / Agência O Dia

O policiamento na comunidade segue reforçado. De acordo com o major Márcio Rodrigues, comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Mangueira, o comércio local está funcionando normalmente. O sepultamento do ex-chefe do tráfico da comunidade acontecerá às 15h30 desta quarta, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul.

Morte estaria ligada com o tráfico de drogas

A suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas e a disputa do líder da ONG AfroReggae, José Júnior, com o pastor Marcos Pereira por influência em regiões do Rio são as linhas de investigação da Divisão de Homicídios (DH) para esclarecer a morte de Tuchinha. Ex-chefe do Morro da Mangueira e empregado do AfroReggae, ONG conhecida por empregar ex-bandidos, ele foi morto na tarde de terça-feira com cinco tiros por dois homens em uma moto, por volta das 13h30, no Morro dos Telegrafos, no Complexo da Mangueira.

A morte de Tuchinha estaria relacionada à de Guilherme Augusto Souza Nascimento, com 20 tiros de pistola nove milímetros, minutos depois, a menos 150 metros, na Rua Jurupá. Testemunhas contaram à polícia que as duas vítimas chegaram juntas, no carro de Tuchinha, um Land Rover Discovery, à Rua da Prata, no Telégrafo, de manhã.

Por volta de 11h, duas horas e meia antes dos crimes, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, inaugurou o 1º Conselho de Gestão Comunitária de Segurança na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), próximo ao local dos crimes.

O ex-traficante Francisco Paulo Testas Monteiro%2C o Tuchinha%2C foi assassinado na tarde desta terça-feira%2C na Mangueira. Ele comandou o tráfico na comunidadeFabio Gonçalves / Agência O Dia

Os serviços de Inteligência das Polícias Civil e Militar receberam informações de que outro alvo é Alexander Mendes da Silva, o Polegar, irmão de Tuchinha. As mortes teriam sido determinadas pelos traficantes Marcelo Fonseca de Souza, o Marcelo Xará, Jean Carlos Tomaz, o Beni, por causa de dívidas. A dupla é dissidente do bando de Polegar. À tarde, o policiamento foi reforçado na região e a ordem da cúpula da PM era a de que o 4º BPM (São Cristóvão) ficasse em alerta para novos ataques de traficantes.

Parentes de Tuchinha e testemunhas já foram ouvidos pela polícia. As declarações de José Júnior foram as mais contundentes. “As mortes reforçam as ameaças, que já denuncio há dois anos, feitas pelos pastor Marcos Pereira e Marcinho VP”, acusou Júnior, referindo-se a Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP. Ambos, estão presos.

Na noite de segunda-feira, Júnior esteve com Tuchinha e o orientou a deixar o Morro da Mangueira, mas ressaltou que ele não fazia parte do tráfico. Segundo policiais, ele havia voltado a participar da Associação de Moradores da Mangueira. Apesar de trabalhar desde 2008 para a ONG AfroReggae, ainda teria voz ativa junto ao tráfico que resiste na favela pacificada. Imagens de câmeras de segurança serão colhidas para rastrear os passos dos criminosos, que fugiram para a parte alta do Morro dos Telégrafos.

Gosto por grifes, ouro e carros de luxo

Policiais e curiosos lotaram a área onde ocorreu o crime%2C no Morro dos Telégrafos%2C a cerca de 150 metros da rua onde outro homem foi mortoPaulo Araújo / Agência O Dia

O modesto salário de R$ 2,5 mil — recebido do AfroReggae por palestras e cursos —, não impedia Tuchinha de hábitos extravagantes. Gostava de roupas de grifes sofisticadas, usava cordões de ouro e deixou de morar na Favela da Mangueira, onde mantinha uma casa, desde que deixou o Complexo de Gericinó, onde cumpriu pena em Bangu I.

Passava muito mais as noites numa confortável casa em Jacarepaguá, e vez por outra, costumava subir a Serra e se hospedar num sítio em Petrópolis. O Land Rover Discovery verde, modelo 2009, no qual chegou ontem à favela, está em nome da sua mãe e vale, pelo menos, R$ 120 mil. Tuchinha limpava justamente o carro na hora em que os assassinos se aproximaram para matá-lo.

Uma investigação da Polícia Civil levantou que Francisco Testas estava à frente da cooperativa de Kombis que operam o transporte alternativo do Largo do Pedregulho, em São Cristóvão, para o Morro da Mangueira — os chamados cabritinhos. Ameaçado de morte, chegou a ser visto na comunidade com escolta.

Vida no crime começou com briga com traficante

Aos 50 anos, Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, era um dos ex-chefões mais antigos do Rio e apenas um de vários de sua família envolvidos no tráfico na Mangueira. Lá, há muitos anos a venda de drogas é comandado pelos Testas Monteiro.

Tuchinha entrou para o crime em 1983, após brigar com um traficante da favela que não pagou pelo carro que ele havia vendido. Ameaçado, passou a andar armado e chegou a atirar no traficante, que não morreu. Depois, começou a roubar e passou ao tráfico.

A convite do cunhado, Ricardo Gonçalves da Silva Gomes, o Ricardo Coração de Leão, virou traficante. Bom administrador, aumentou as vendas de entorpecentes na Mangueira, ganhou confiança e foi subindo de posto até se tornar um dos chefões. Ele era tão influente na favela que interferia até na escolha dos sambas-enredo da Mangueira e das passistas e destaques da escola. Era ligado também a políticos e artistas.

Na Mangueira, era descrito como calmo e conciliador. Seu jeito tranquilo lhe rendeu o título de presidente do Comando Vermelho (CV), como era chamado em Bangu 3, em 1999. Em 2007, ganhou liberdade condicional e fugiu para Aracaju, em Sergipe, onde vivia com a mulher e a filha. Naquele no, foi sequestrado por policiais e teria pago mais de R$ 1 milhão.

Land Rover que Tuchinha usava custa em torno de R%24 120 milPaulo Araújo / Agência O Dia

Mas em 2008 foi preso pela Polícia Federal e pela Divisão Antissequestro, e levado para Bangu 1. Na cadeia, deixou o CV e ficou numa cela sozinho por medo de ser morto. Antes, no mesmo ano, foi co-autor do samba da Mangueira, com o codinome de Francisco do Pagode. Condenado por dois assassinatos e associação para o tráfico, ele deixou a cadeia em 2011, após 18 anos de prisão, e foi trabalhar no AfroReggae, ganhando R$ 2,5 mil na agência de empregos Segunda Chance, programa de empregos para ex-presos. E participava do Comandos, grupo que promove debates sobre a segurança pública do Rio.

Conselho de Segurança

Horas antes de Tuchinha ser assassinado, José Mariano Beltrame foi à Mangueira lançar o primeiro Conselho de Gestão Comunitária de Segurança. O secretário anunciou reforço no policiamento em Caxias, Nova Iguaçu e São Gonçalo e admitiu que há mais crimes nessas regiões. Serão mais 200 policiais recém-formados para cada batalhão. O secretário afirmou ainda que há um plano de ocupar o Morro do Chapadão, em Costa Barros, mas não disse quando isso acontecerá.

O evento contou com cerca de 20 moradores. Problemas de falta de iluminação pública e residencial foram discutidos. Pouco se falou sobre segurança na sede da UPP, que estava tomada por policiais, entre eles o comandante das UPPs, coronel Frederico Caldas. Moradores reclamaram de contas de luz de até R$ 300 com apenas um ventilador, geladeira e TV.

Beltrame ligou para o presidente da Light e pediu que os casos sejam avaliados. Também criticou candidatos que fazem promessas e viram as costas após serem eleitos. “Quando isso acontece, o problema acaba aqui, na polícia.”

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