Por thiago.antunes

Rio - Elza é uma senhora de 70 anos, moradora do bairro Vila Brasil, em Itaboraí. Há poucas semanas, ela chorou ao se despedir de seu trinca-ferro de estimação. A ave foi apreendida em uma operação da Polícia Militar. Na mesma ação, seu vizinho, Luiz, de 20 anos, teve suas aves resgatadas pelos agentes. Enquanto para ela o pássaro era um companheiro, ele é acusado de usar a ave como moeda de troca, afirmou a PM.

Ambos são exemplos diferentes de pessoas que mantêm em cativeiro animais silvestres, um crime ambiental que ajuda a aumentar a lista de extinção que já conta com 74 espécies apenas no Estado do Rio, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

Todos os animais apreendidos pela PM são levados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), em Seropédica, de responsabilidade do Ibama. Ao chegarem no local, passam por avaliação veterinária para serem identificados problemas de saúde e a região de onde são provenientes. Segundo os veterinários do Cetas, 90% dos animais são aves com variadas complicações de saúde por causa da má alimentação e também problemas psicológicos causados pelo tempo de cativeiro.

Veterinário do Centro de Triagem de Animais Silvestres%2C Daniel Marchesi Neves mostra falcão que perdeu a asa%2C decepada por linha de pipaFabio Gonçalves / Agência O Dia

Atualmente, o Cetas cuida de 1.100 animais que são avaliados constantemente para reintegração à natureza. Antes disso, um trabalho árduo precisa ser feito para que o bicho não fique vulnerável. De acordo com Daniel Marchesi, veterinário responsável, no caso das aves, além de voltar para um ambiente em que haja um ecossistema propício para cada espécie, muitas vezes os animais precisam reaprender a voar. Um passarinho demora até quatro semanas para fortalecer a musculatura e conseguir alçar voo.

“As pessoas precisam entender que certos animais não servem para bichos de estimação”, disse Daniel. Há casos de aves que não voam mais por conta de mutilações causadas pelos antigos donos. Algumas delas precisam ter a asa amputada, caso de um falcão que foi dado de presente para uma menina de 9 anos. Por não conseguirem mais voar, esses animais não podem ser reintegrados à natureza. Em geral são doados a criadores registrados no Instituto Estadual do Ambiente (Inea).

O veterinário recebe muitos macacos em fase de adolescência. Ao capturar o filhote, os caçadores matam a mãe e, com o tempo, o animal se torna agressivo. Acabam soltos inadequadamente ou colocados em jaulas, ocasionando traumas.

Mercado paralelo por causa do canto dos pássaros

Para combater esses crimes, a polícia tem contado, além de investigação, com denúncias feitas pela população. Todas são encaminhadas para a Companhia de Policiamento Ambiental da PM (Cpam), que faz averiguação e operações.

Desde 2012, o Cpam mudou a forma de atuar e deixou de fazer policiamento ostensivo para focar nas denúncias. De acordo com o batalhão, no primeiro semestre deste ano foram realizadas 686 ações, sendo que destas 497 foram bem-sucedidas, com apreensões de animais, um número recorde da corporação. Em 2011, de 644 operações, apenas 257 tiveram resultados.

Segundo policiais, a maioria dos criadores irregulares movimenta um mercado paralelo com os animais. Existem competições de canto de pássaros, por exemplo. Eles trocam animais entre si e também por objetos de valor. O que pode fazer com que respondam por receptação.

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