Analfabeta até fevereiro, aluna de Niterói ganha ‘bronze’ em concurso de redação

Ex-moradora de rua dá lição de vida e de superação

Por daniela.lima

Rio - Aos 12 anos, Lorena Leita da Costa já é uma lição de vida. Analfabeta até entrar para a escola em fevereiro desse ano, a aluna do 3º Ciclo da Escola Municipal Anísio Teixeira, em São Domingos, Niterói, ficou em terceiro lugar no concurso de redação ilustrada Criando a Niterói do Amanhã, com o tema ‘Que Niterói você quer?’. Nos textos, os alunos da rede municipal de ensino sugeriram mudanças para uma cidade melhor. Os trabalhos foram entregues em agosto, quando a menina tinha apenas seis meses de alfabetizada. O projeto é da Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag) da prefeitura da cidade. 

Lorena estuda flauta e bateria%2C brinca de boneca e é fã da cantora gospel Aline BarrosAlexandre Vieira / Agência O Dia


Mas Lorena é mais que uma campeã do concurso. Ela é uma vitoriosa da vida. Até ir morar com o pai, Jadilson Barbosa da Costa, em fevereiro, após a morte da avó, a realidade da menina não foi nada fácil. Viveu com a mãe que se entregou às drogas e à prostituição com uma das filhas, e chegou a morar na rua com elas e outros irmãos, após terem que sair de casa sob ameaças de traficantes. Viu a avó, que a criou, entrar em depressão e morrer de câncer, e um irmão ir para o Conselho Tutelar.

No entanto, ela vem superando as adversidades e com a ajuda da família — além do pai, vive com outros irmãos e a madrasta — e dos professores, deu a volta por cima e está escrevendo um capítulo feliz de sua história. Além de estudar, faz aulas de flauta e bateria, vai à praia com a família, brinca de boneca e gosta de Aline Barros, cantora gospel, e de Ivete Sangalo, dia a dia bem diferente de tempos atrás.

Mas as marcas do passado recente ainda assombram a menina. “Via a minha mãe sair de casa todos os dias para usar drogas e se prostituir com minha irmã. Pedia a ela para não ir porque gostava dela. Ela dizia que ia tentar parar, mas não consegui. Ficava triste. Era muito ruim”, lembra ela, aos prantos, ao lado da professora Kênia Soraia Soares Costa, de 37 anos, que também se emociona.

Lembrar desse período é ainda muito doloroso para Lorena, menina tímida, que fala baixo, mas conta, com detalhes, tudo o que viveu. “Quando ficamos na rua, eu ia a casa da minha avó pegar comida pra gente. Dormíamos juntos na calçada e, às vezes, na casa das amigas da minha mãe”, conta Lorena.

O período nas ruas durou pouco porque logo a avó alugou uma casa em outro lugar para elas morarem. Mas os problemas não continuaram como se agravaram. Um tempo depois, a avó de Lorena, responsável por todos da família, faleceu. “Minha mãe continuou saindo com minha irmã para usar drogas. Minha avó foi ficando triste com isso, e como já estava doente, acabou morrendo e meu pai me levou para morar com ele”, relata.

Mas, com o tempo, as coisas foram melhorando e a escola mudou a vida da menina. A menina faz planos quando crescer. “Quero ser advogada e também encontrar minha mãe e minha irmã e ajuda-las”, revela.

A redações de Lorena e de todos os vencedores — ao to 34 — farão parte do plano de melhorias para Niterói, que está sendo elaborado pela Seplag a partir da opinião dos moradores. O plano será lançado dia 22, no Teatro Municipal de Niterói, no aniversário da cidade. 

Turma tem 10 adolescentes com histórias parecidas

Quando Kênia chegou à Anísio Teixeira, Lorena já estava lá e, desde então, nunca mais se desgrudaram. Kênia é professora da classe de Aceleração, da qual Lorena faz parte, projeto da prefeitura para alunos fora de seu grau de escolaridade. A turma tem 10 adolescentes com histórias semelhantes à de Lorena. “Esse projeto é um desafio. Temos que colocar esses alunos para frente. Eles são muito carentes e têm histórias muito difíceis”, explica Kênia.

A diretora-geral da Anísio Teixeira, Mara Rosana Lobo Alves conta que quando os alunos chegam muito carentes. “A gente tem vontade só de ficar abraçado. São muito carentes. Mas não podemos fazer só isso? Temos que educa-los, ensinar, cobrar, porque é esse nosso dever, mas também damos carinhos, claro”, conta ela, ressaltando a importância de Jadilson, pai de Lorena, na busca por um futuro melhor para a filha. "Ele nos procurou vários dias. A insistência desse pai foi muito importante para esse resultado”, frisa Mara Alves.

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