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PMs envolvidos na morte de Haíssa são denunciados pelo Ministério Público

MP pede a suspensão do exercício das funções públicas dos policiais e do direito ao porte de arma

Por nicolas.satriano

Rio - O Ministério Público do Rio decidiu denunciar os dois policiais militares acusados de envolvimento direto na morte da atendente de telemarketing Haíssa Vargas Motta, de 22 anos, em 2 de agosto de 2014. O soldado Marcio José Watterlor Alves, autor dos disparos contra o veículo onde a vítima estava, e o cabo Delviro Anderson Moreira Ferreira, que conduzia a viatura, responderão pelo crime de homicídio duplamente qualificado (motivo fútil e recurso que dificulta ou impossibilita a defesa).

Já a Polícia Militar informou que, ao todo, quatro PMs serão submetidos a Conselho Disciplinar e podem ser expulsos da corporação por conta do fato. Além dos denunciados pelo MP, os cabos Gutemberg de Carvalho Gomes Junior e Carlos Henrique Ribeiro Furtado, que participaram da perseguição em outra viatura, também vão responder ao procedimento.

Haissa Vargas Motta%2C de 22 anos%2C morreu após perseguição no último final de semana%2C em Nilópolis%2C na Baixada FluminenseReprodução Facebook

Marcio José Watterlor Alves, que afirmou em depoimento ter disparado pelo menos seis vezes contra o HB20 onde a vítima e outros quatro ocupantes estavam, disse ainda que a outra viatura que apoiava a ação chegou a disparar ao menos uma vez contra o grupo.

No entanto, após analisar o laudo da perícia, a Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) constatou em seu relatório final que o disparo citado teria pego no meio-fio. Já os tiros que partiram da arma do soldado, além de atingir Haíssa nas costas, ficaram retidos em alto-falantes do veículo, salvando a vida dos outros ocupantes. No depoimento dado à DHBF, Marcio disse também que atirou após ouvir “de dois a três estampidos vindo da direção do veículo HB20 e de uma moto”.

Promotores da 9ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal e da 3ª Central de Inquéritos, entenderam que o cabo Delviro contribuiu para o crime já que, pela patente, era o comandante da viatura e acautelava o fuzil usado por Márcio.

As prisões preventivas deles não foram solicitadas na denúncia, já que os PMs estão afastados de suas funções pelo comando da corporação. No entanto, o MP pediu à Justiça a suspensão do exercício de função pública, a revogação do porte e a entrega das armas dos dois. A família de Haíssa disse nesta terça que pretende processar o estado por danos morais, além de pedir uma pensão e tratamento psicológico para os pais da atendente de telemarketing.

'Agiram como verdadeiros marginais', desabafa pai de jovem morta por PMs

?A divulgação do vídeo feita pela revista Veja no último final de semana fez a família de Ironildo Motta reviver um pesadelo. Na madrugada do dia 2 de agosto do ano passado, sua filha, Haissa Vargas Motta, de 22 anos, foi assassinada durante ação desastrosa da Polícia Militar, em Nilópolis, na Baixada Fluminense. Ironildo responsabilizou os PMs pela morte de Haíssa e os chamou de "bandidos".

"Foi triste ver a incompetência da polícia, o despreparo deles. Porque eles agiram como verdadeiros marginais, verdadeiros bandidos. O que acontece é que eles não souberam interceptar, não havia necessidade de alvejar o carro do jeito que eles fizeram. Num país tão democrático como o nosso, cheio de regras e só pagam os pobres. É justamente a lei que nos mata, aqueles que são para nos proteger, são aqueles que nos matam", disse em entrevista para a CBN.

O vídeo mostra o início da perseguição ao carro onde Haissa e mais três amigos estavam e quando o policial militar Márcio José Watterlor Alves disparou noves vezes contra o veículo. O pai da jovem revelou que havia conversado com ela horas antes da tragédia e que tinha pedido para ela ter cuidado com a violência.

"No dia anterior que foi numa sexta-feira, eu tinha conversado com ela, era umas 9h30 da noite. Ela estava numa festa e eu disse: 'poxa filha, vai para casa. Cuidado na rua'. Quando foi no sábado de manhã, a triste notícia que a minha filha tinha sido alvejada por policiais", lamenta.

Mesmo após cinco meses da morte de Haissa, Ironildo diz que sua família ainda sofre com a tragédia. "Até hoje nós estamos sofrendo. A minha mulher está doente em cima da cama. Ela não consegue se recuperar disso (morte da filha). Ela está com uma depressão profunda. A minha caçula quase perdeu o emprego. Ela não consegue ir trabalhar. Eu estou mais fraco do que elas, mas tenho que me mostrar forte", afirma.

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