Representações islâmicas serão convocadas para audiência pública

Objetivo da Comissão de Direitos Humanos da Alerj é criar um canal direto para denunciar casos de intolerância e violência

Por nicolas.satriano

Vivian Dell’aglio diz não se arrepender de ter ingressado na comunidade islâmica após assistir novelaCarlos Moraes / Agência O Dia

Rio - Os relatos de intolerância e violência física contra muçulmanos no Rio, publicados nesta segunda-feira pelo DIA, levaram a Comissão de Direitos Humanos da Alerj a se movimentar para assegurar proteção às vítimas.

De acordo com o deputado Marcelo Freixo (Psol), as principais representatividades islâmicas do Rio serão convocadas, nos próximos dias, para uma audiência pública. A intenção é propor um canal direto de denúncias e amparo, além do diálogo junto à Secretaria de Segurança Pública sobre crimes de intolerância religiosa. “Desde já, os adeptos do islã que foram agredidos receberão proteção especial”, garantiu.

Para Freixo, tão importante quanto o trabalho de conscientização e amparo é a criação de uma Delegacia Especializada em Crimes de Ódio, o que englobaria atos de hostilidade variados de diversos tipos de preconceitos. O Rio de Janeiro tem demanda suficiente para isto”, concluiu o deputado. Ele prometeu encaminhar uma proposta legislativa à base governista após o Carnaval, quando a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa — da qual espera apoio — já terá sido eleita.

Não é apenas de estranhos que parte a violência contra islâmicos. Entre as cerca de cem pessoas que se converteram à religião no Rio sem ter origem árabe, as primeiras retaliações costumam ser de pessoas conhecidas. É o caso da estudante Vivian Dell’aglio, 23 anos, que se tornou muçulmana há menos de dois anos.

Ela conta que conhecidos a discriminam pela opção. “Por vezes, preciso sair com a vestimenta comum e vestir quando estou distante de todos, às vezes, no ônibus. Fui agredida pela minha fé”, lamenta.

No seu ciclo social, é o preconceito silencioso que a entristece. “Atualmente, tenho menos de 10% dos meus amigos mais antigos. Muitos têm vergonha de chegar perto de mim por andar coberta e não beber álcool”, afirma ela, que precisou se afastar das festas da faculdade.

“Mesmo assim não me arrependo. Ganhei amigos dentro da comunidade islâmica do Rio e vivo da minha fé”.

Taxada de louca pela escolha, ela vai escondida à mesquita. Se adaptar à nova rotina após a conversão também não é fácil, segundo ela. Conta que sente vontade de comer carne de porco (proibida entre muçulmanos) e tem saudades dos carnavais. De acordo com ela, o interesse pelo islamismo surgiu na infância, ao assistir uma novela.

Bolsa exuberante, maquiagem nem tanto

Por baixo dos panos, mulheres como todas as outras. “As pessoas pensam que o uso do véu anula nossa vaidade. Ledo engano. Nossa vestimenta preserva uma beleza para o marido, dentro de casa, quando nos vestimos e maquiamos como todas as outras mulheres”, afirma Zahra Bravo, 33. Vivian Dall’aglio, por sua vez, ressalta que o uso da maquiagem nas ruas deve ser moderado.

“Se eu chamar atenção somente para os meus olhos e lábios, estou descumprindo a regra de me preservar”, afirma ela. Ponto fraco de ambas, as bolsas são os itens em que extravazam em cores e design. “Dentro de casa, visto vestidos de alças. Erra quem pensa que vivemos de burca”, conclui Zahra.

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