Por nicolas.satriano

Rio - A crise financeira que afeta o governo estadual chegou com peso ao cursinho Pré-Vestibular Social (PVS). Os 355 professores que trabalham nas 54 unidades onde o projeto funciona estão sem receber salários referentes a março e foram informados pela direção da Fundação Centro de Ciência e Educação Superior a Distância do Rio (Cecierj) que não há previsão para quitar o pagamento atrasado ou para os próximos.

Cerca de oito mil alunos estudam nas unidades espalhadas pelo estado e, segundo os professores, se a situação não se normalizar, eles serão obrigados a parar por falta de dinheiro para o próprio deslocamento até as escolas. “A situação é caótica. O pessoal não quer a greve, mas é uma pauta cada vez mais necessária”, afirma Leyza Buarque Lucas, representante do grupo de professores do PVS.

Professores se reuniram na terça-feira para discutir a situação do Pré-Vestibular Social. Eles não receberam o pagamento relativo a marçoAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Em e-mail enviado pela diretora do PVS, da Cecierj, Celina Costa, no último dia 17 ela informa que a crise financeira do estado está impedindo pagamentos de várias áreas da fundação. “Ainda não temos previsão de data pois o estado ainda não nos deu essa informação. O que sabemos é que o estado não tem autorizado até o momento, nenhum pagamento, seja de bolsa, seja de fornecedores, para a Fundação”, escreveu a diretora no comunicado aos professores. Ao finalizar o e-mail, ela lamentou o que chamou de “transtorno”, mas disse que a situação está “está fora de nosso alcance solucionar”.

A maioria dos professores que integra o projeto é de de estudantes de graduação, mestrado ou doutorado. Eles recebem bolsas entre R$ 550 e R$ 890 mais o valor para custeio de passagens. As aulas ocorrem uma ou duas vezes por semana nas escolas estaduais no período noturno ou aos sábados. “Segundos os dados da direção, a gente está com uma média de evasão muito menor que em outros anos e a desistência é o pior pesadelo da gente. Então temos muitos alunos indo às aulas, mas com essa situação desestimula”, desabafa Leyza.

Os professores também relatam que cerca de 30% das unidades não estão recebendo merenda e, por isso, estão funcionando apenas em um turno.

O estudante da unidade do Centro João Victor da Silva, 19 anos, quer entrar na faculdade de Engenharia Mecânica. Morador do Jacaré, ele terminou o Ensino Médio em 2013, mas não conseguiu ser aprovado no vestibular. Agora, trabalha como auxiliar administrativo e estuda segundas e quartas-feiras à noite no PVS.

“Os professores são bastante atenciosos apesar de o tempo ser curto. As aulas são boas, dinâmicas e eles levam super a sério. Até indiquei para vários amigos”, conta Silva. Mas o estudante preocupado com a situação do cursinho. “Eles já ganham pouco e estão pagando a passagem sem o salário, que está atrasado”, disse.

Secretaria ainda vai estudar como regularizar o pagamento de bolsas

Procurada, a Secretaria de Ciência e Tecnologia, responsável pelo pagamento das bolsas, informou por meio de nota que “algumas medidas operacionais estão sendo adotadas para que a partir do pagamento referente ao mês de abril os valores sejam quitados sem atraso, como sempre ocorreu.

No que se refere à regularização dos meses anteriores, nos próximos dias será divulgada a data de um novo encontro entre as secretarias vinculadas para que, em conjunto, consigam elaborar um cronograma com as respectivas datas de pagamento.”

Outra instituição que sofre com a falta de verbas é a Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna, considerada a mais antiga do gênero em atividade da América Latina. Ela também vive dias difíceis.

Segundo os alunos, desde o início do semestre 20 professores e 13 funcionários deixaram a unidade, o que deve acarretar em uma paralisação das atividades.

Os estudantes dizem que estão sem telefone e internet e que não há recebimento de verba a contar de outubro do ano passado. Também há queixas sobre a estrutura antiga da escola, que necessita de reformas.

Para debater a situação, os alunos convocaram para hoje o Ato Artístico Martins Resiste, a partir das 17h.

Cursinho foi criado há 13 anos

Criado há 13 anos,o Pré-Vestibular Social já fez diferença até na vida de alguns de seus atuais professores, como Claudio de Oliveira Martins, 21. Ele fez o cursinho em 2012 e agora estuda Letras Português e Literatura na UFF: “Eu fiz o Enem, mas não passei na primeira edição do Sisu. Aí comecei o cursinho. No meio do ano, meu orientador acadêmico no PVS mostrou que a UFF tinha mais vagas no Sisu para o segundo semestre e eu consegui passar. Mas, como a UFF estava em greve, continuei no curso até as aulas voltarem.”

Hoje, ele é professor de redação da unidade de Bangu. Como mora em Itaboraí, a falta de pagamento para as passagens está deixando sua situação financeira bastante complicada: “Sempre pretendi ser professor e quis voltar para ajudar as pessoas que enfrentam dificuldade, assim como enfrentei. Só que agora a gente acaba tirando de outros lugares para poder estar ali no pré-vestibular. Eu sou graduando e não tenho atividade remunerada fixa. É a minha única renda.”

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