Por nicolas.satriano

Rio - O assassinato do cardiologista Jaime Gold, esfaqueado no começo da noite de terça-feira num dos principais cartões-portais da cidade expôs a fragilidade da segurança pública do estado, obrigou o governo a prometer reforço no policiamento da região e revoltou a população. Golpeado por dois assaltantes quando andava de bicicleta na orla da Lagoa, o médico de 57 anos, pai de dois filhos jovens, não resistiu aos ferimentos no tórax e morreu após quatro horas de cirurgia no Hospital Miguel Couto.

Cartão-postal%3A quatro ciclistas foram esfaqueados apenas em abril na região da Lagoa. Cardiologista erá velado e enterrado hoje Fernando Souza / Agência O Dia

O crime foi na altura da Curva do Calombo. Segundo um frentista, Gold foi abordado por dois jovens e golpeado com um facão, mesmo sem reagir. Professor de Medicina na UFRJ, adorado pelos alunos, Jaime Gold sofreu três perfurações no abdômen e uma na mão. Sua bicicleta, celular e carteira ficaram com bandidos que ainda não foram identificados. A Delegacia de Homicídios fez perícia no local e recolheu imagens de câmeras de segurança. O enterro será hoje no Cemitério Israelita.

A tragédia com Jaime Gold não é um ponto fora da curva estatística da violência na Zona Sul. Ele é a quarta vítima esfaqueada nas redondezas da Lagoa em menos de 30 dias. O francês Victor Didier, de 19 anos, sofreu perfurações nos pulmões, quando saía de um jogo de basquete, no início da noite do dia 19.

Governo reforçou patrulhamento na área nesta quarta-feiraFernando Souza / Agência O Dia

Seis dias depois, a vítima foi Felipe Schuchmann, de 14 anos. Na tarde de ontem, menos de 24 horas após a morte de Jaime e poucas horas após o Secretário de Segurança manifestar indignação com o ocorrido e prometer mudanças, Lorena Tristão, de 31 anos, foi atacada a faca na passagem subterrânea em frente ao Shopping Fashion Mall, em São Conrado. Ela sofreu corte na perna e escoriações nos braços, mas passa bem.

Mudança de hábitos

Os números da violência do Rio de Janeiro — 50.181 mortes violentas desde 2007 contabilizadas pela ONG Rio de Paz — retratam uma população que vive sitiada pelo medo. Os moradores do entorno da Lagoa mudaram os hábitos.Após ter sido assaltada no mesmo lugar em que Jaime foi atacado, a defensora Fabiana Andrade passou a tomar mais cuidado. “Não trago absolutamente nada para correr. Um monte de gente que eu conheço já foi assaltada aqui. As pessoas têm comprado suporte e ido de carro para a Vista Chinesa para andar de bicicleta”, comentou Fabiana.

Mapa da violência%3A infográfico mostra local onde ciclista foi esfaqueado e postos de policiamento em torno da LagoaArte O Dia

O estudante de Psicologia Alexandre Rodrigues passou de bicicleta durante a ação da polícia e fixou um cartaz com os dizeres “Não mereço ser esfaqueado”. “A segurança da cidade está falida. Não tem polícia para tomar conta de tudo e perdemos o direito de ir e vir”, declarou o ciclista.

O analista de sistemas Mauro Herson contou que conhecia a vítima e disse que vai entrar com uma ação judicial contra o Estado. “Não adianta colocar polícia agora e tirar daqui a um mês. É preciso agir com inteligência e prevenir esse tipo de situação”, disse Herson.

Trauma que persiste

A rotina ainda não voltou totalmente ao normal para o filho de Daniela Schuchmann, 43, outra vítima esfaqueada na Lagoa. O adolescente de 14 anos também foi agredido por dois menores que roubaram sua bicicleta e de um amigo na manhã do dia 25 de abril.

“Ele se recuperou bem, mas ainda não voltou a andar de ônibus sozinho. Cada coisa a seu tempo”, contou a mãe do garoto. Daniela disse que não tem raiva do menor que esfaqueou seu filho. “Ele é alguns meses mais velho que o F. Temos que ter calma”, observa. A traumática experiência fez com que ela e o marido decidissem ajudar crianças e adolescentes carentes.

Protesto contra violência na Orla da LagoaFernando Souza / Agência O Dia

“A curto prazo tem a polícia, mas a longo todo mundo tem que ajudar a criar estruturas de apoio. Tanto sociedade, quando governo”, explicou.

Sobre a morte do médico Jaime Gold, ela disse que agradeceu a Deus novamente. “Como isto mostrou, poderia ter sido pior com o meu filho. Foi muito perto (o corte) da jugular”, disse aliviada.

A ONG Rio de Paz fez ontem um protesto no local onde ocorreu o crime. Foi colocada uma bicicleta pichada de preto, rosas vermelhas e cartazes com números da violência em todo o estado. “Nós vimos hoje a violência vazar para a Zona Sul. Violência essa que é experimentada regularmente pelo pobre na favela”, afirmou, Antonio Carlos Costa, fundador da ONG.

O desabafo da família

A filha do médico Jaime Gold, Clara Amil Gold, 21 anos, desabafou sobre a morte do pai no Facebook. “Ninguém merece sofrer o que você sofreu, tamanha violência. Mesmo estudando Psicologia não consigo compreender o que leva um ser humano, ainda mais em uma circunstância como esta. Uma bicicleta e uma carteira por uma vida”, desabafou.

Marcia Amil, ex-mulher de Gold, deu depoimento emocionado ao DIA. Mãe dos dois filhos de Jaime, Daniel, de 22 anos, e Clara, Marcia criticou os que pretendem se aproveitar de mais uma tragédia na cidade para defender a redução da maioridade penal.

“Nem sei se foram menores, mas sei que Jaime foi vítima de vítimas, que são vítimas de vítimas. Enquanto nosso país não priorizar saúde, educação e segurança, vão ter cada vez mais médicos sendo mortos no cartão-postal do país. E não só médicos. Afinal, morrem cidadãos todos os dias em toda a cidade, não só na Zona Sul”, disse Marcia Amil.

Abalada com a tragédia, Marcia contou detalhes de uma madrugada que vai ficar marcada para sempre na sua vida e na dos filhos. “A gente vai encontrar forças, mas é uma marca que não sai mais. Foi uma atrocidade. Quem o esfaqueou, rasgou de baixo para cima. Atingiu baço, fígado, intestino, diafragma. Ele teve uma parada cardíaca de 50 minutos, outra de 30minutos, precisou de mais de 10 sacos de sangue”, relembrou.

Ao encerrar, Marcia disse que ele era “um cara que vivia para salvar vidas”.

Esportista, brincalhão e querido por onde passava

Morador da Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, Jaime Gold era querido por todos na vizinhança. Na padaria, no jornaleiro ou no chaveiro. Estava sempre de bom humor, brincando com todos.

Paulo Cesar Oliveira, gerente da padaria Panorama, na esquina da Farme com a Rua Nascimento Silva, acredita que tenha sido um dos últimas pessoas a falar com Jaime, por volta das 18h de terça-feira.

“Ele passou aqui na padaria para ajeitar o banco da bicicleta e, como sempre, parou para brincar comigo, implicando com o meu Flamengo. Era tricolor roxo. Quando o Flu ganhava, vinha aqui zoar todo mundo. Quando perdia, sumia dois, três dias”, disse Paulo Cesar.

Apaixonado por esportes, foi maratonista, triatleta e estava feliz da vida por ter se recuperado de uma hérnia que vinha impedindo que ele corresse. Na academia onde batia ponto, na Rua Vinícius de Moraes, a um quarteirão de sua casa, todos lamentaram sua morte.

“Era um cara muito bacana. Tinha montado uma academia em casa e não vinha mais aqui, mas aparecia para bater papo enquanto deitava na cadeira de massagem”, contou o professor Paulo Fausto.

Ex-presidente do Fluminense, o cardiologista Roberto Horcades lembrou com carinho do colega de faculdade: “Foi meu calouro no Fundão. Nunca fez mal a ninguém”, disse Horcades.

Reportagem de Caio Barbosa, Diego Valdevino e Juliana Dal Piva, com a colaboração das estagiárias Clara Vieira e Flora Castro

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