Pais e pacientes ficam angustiados com interrupção de atendimento em hospital

Suspensão de consultas na Policlínica Piquet Carneiro levou pai a se oferecer para fazer a limpeza da internação infantil

Por nicolas.satriano

Rio - Mais uma vez o atraso em repasses na área da saúde impacta diretamente os salários de funcionários terceirizados pelo estado e ameaça desamparar várias famílias do Rio. Desta vez, a suspensão na última semana dos atendimentos no Centro de Tratamento de Anomalias Craniofaciais (Ctac), uma das três instituições de referência no tratamento de fendas labial e palatina do país, que funciona na Policlínica Piquet Carneiro, no bairro São Francisco Xavier, na Zona Norte, 'obrigou um pai a se oferecer para trabalhar na limpeza do hospital esperando garantir que o filho fosse atendido. Nem isso conseguiu. Faltavam na unidade cloro, desinfetante e outros materiais necessários para higienização.

"Esta paralisação do serviço de limpeza nos deixou sem previsão nenhuma. A cirurgia do meu filho, Archilau Isaque, era pra ser esse mês se tudo desse certo. Fora as cirurgias, havia ainda o acompanhamento da fonoaudióloga e da ortodontista, que já tratavam dele. O agendamento não foi feito, pois esperávamos por vaga para a cirurgia no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), que já no mês passado vivia uma crise no serviço de limpeza. Eu me voluntariei a limpar a internação infantil, que vimos ser feita hoje (nesta segunda-feira) pelas enfermeiras de plantão", contou o sargento da Aeronáutica Ricardo Melo, 35 anos.

Archilau Isaque em atendimento no Ctac após a primeira cirurgia. Pais se angustiam com interrupção de tratamentoarquivo pessoal

O filho de Ricardo, de apenas dois anos, nasceu com duplas fendas no palato e lábio - malformações congênitas que comprometem a fonética, respiração, e diferenciam esteticamente aqueles que têm as fissuras. Prevista para junho, a cirurgia de Isaque para corrigir o palato - uma das 20 intervenções pelas quais a criança deverá passar até chegar à vida adulta - foi cancelada e sem previsão para ser feita. O primeiro procedimento por qual passou, felizmente, foi um sucesso.

Segundo Ricardo, toda a equipe médica da policlínica já estava à postos e o procedimento de Isaque, agendado. Sem ter como custear as cirurgias do filho, que sairiam em torno de R$ 15 mil se feitas em rede particular, os pais se disseram "perplexos" com a suspensão do serviço.

O próprio filho já percebe a dificuldade da fala, conta Ricardo. "Isso o deixa constantemente irritado, por perceber que as pessoas não o compreendem. Ele faz um imenso esforço para falar, pois a fenda não permite a referência da língua com o céu da boca", explicou o pai.

O vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), Nelson Nahon, contou ao que o problema de repasses é crônico e prometeu que ainda esta semana, ou no início da próxima, uma equipe da instituição vai à policlínica fazer uma inspeção. Em reunião na semana passada com o secretário de Saúde, Felipe Peixoto, Nahon disse que o responsável pela pasta reconheceu o atraso em repasses do estado para o município.

Protesto nesta segunda-feira pedia reativação imediata do atendimento no centro de referência%2C único no Rio e um dos três existentes no BrasilNicolás Satriano / Agência O Dia

Como O DIA informou no último sábado, o futuro de Peixoto à frente da Saúde já está ameaçado. Esta semana, o secretário deve ir à Assembleia Legislativa (Alerj) prestar esclarecimentos sobre a atual crise da pasta. Os valores devidos pela Secretaria de Saúde estariam na ordem de R$ 700 milhões.

"Cobramos o secretário permanentemente.Vamos enviar uma equipe de fiscalização para comprovar e entender o que acontece no Ctac. Existem áreas para as quais não há como deixar de repassar verbas. Vamos continuar pressionando o governo estadual neste sentido", concluiu o vice-presidente do Cremerj.

Pais e pacientes organizam protesto

Pais e pacientes do Ctac organizaram um protesto contra a interrupção dos atendimentos na manhã desta segunda-feira, em frente à policlínica. Mãe de Jonathan Victor, de um ano e oito meses, a pedagoga Luciana Azevedo, 35, vive a mesma angústia de outros pais. O filho dela não tem o maxilar e nem a arcada dentária superior esquerda por causa de um tumor raro que, apesar de benigno, segue sendo estudado por especialistas.

De acordo com Luciana, após visita do DIA ao hospital, nesta segunda-feira, foi informado pelo diretor do centro de tratamento que a Secretaria de Estado de Saúde liberou recursos para que o pagamento de funcionários terceirizados fosse feito e o atendimento restabelecido. A expectativa é que na próxima semana as consultas voltem a ser agendadas. Apesar disso, corre em boca miúda que a verba só garante os salários até setembro. "Depois desse período, não sabemos como vai ficar", disse Luciana.

Procurada, a Secretaria Estadual de Saúde informou que foi publicada ontem no Diário Oficial do Estado “a descentralização” de R$ 1,1 milhão para o Cetac, para custear a folha de pagamento do segundo e terceiro trimestres dos profissionais que atuam no Centro. Segundo o órgão, o repasse do primeiro trimestre foi feito em janeiro.

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia