Por felipe.martins

Rio - O resultado de inquérito administrativo feito pela Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha) para apurar comentários preconceituosos de uma professora sobre a Síndrome de Down causou revolta. O episódio ocorreu em agosto, quando a professora Ana Lúcia Gregati atacou os portadores da síndrome ao falar sobre um trabalho para sua disciplina, em mais um caso de docentes da universidade envolvidos em casos de discriminação.

"Não me venha com documentário sobre gente com síndrome de down, porque podem até achar bonitinho, mas aquilo é horrível, não é normal, não adianta, eu odeio ver. Agora vem aí dez semanas de dr. Drauzio Varella, com esse tema. Um saco. Quem quer ver isso?!", indagou a docente. Ela estaria se referindo à série "Qual é a diferença?", que o "Fantástico", da TV Globo, começou a exibir no mês passado. 

A Facha abriu processo interno para apurar os fatos e a única punida foi a aluna Elisa de Souza Pinto, que rebateu a fala de Ana Lúcia Gregati em sala e recebeu uma carta de repreensão disciplinar na semana passada. Depois em post no Facebook relatou os fatos, o assunto ganhou a imprensa, mereceu as atenções do senador Romário (PSB-RJ), que tem uma filha portadora da síndrome e milita pela causa no Congresso. De acordo com o inquérito realizado pela Facha, que ouviu outros estudantes, Elisa e Ana Lúcia Gregati, a fala da professora não conteve nenhum tipo de preconceito ou discriminação. A faculdade condenou também o fato de a aluna ter feito a postagem em seu Facebook, e que isso seria uma "ofensa" à professora. 

As medidas tomadas pela universidade geraram reações contrárias. Em nota, o senador Romário afirmou que "o resultado do inquérito não chega a conclusões objetivas, em minha opinião injustas, como no caso de punir a aluna, mesmo que com uma repreensão. No Brasil, crimes de preconceito, infelizmente ainda são relativizados", disse o parlamentar. A ONG Movimento Down também divulgou nota repudiando as decisões da Facha. "No inquérito transparece a preocupação dos alunos e professores em preservar o bom nome da faculdade, em detrimento de encarar a questão do preconceito dentro de sala de aula", diz o texto postado na página do grupo no Facebook. A Facha prometeu organizar evento sobre preconceito e liberdade de expressão. 

O inquérito realizado pela faculdade também acusa a aluna Elisa de ter usado seu post nas redes sociais para 'pautar' a imprensa com sua versão dos fatos. O documento cita a amizade dela com a jornalista Kamille Violla, com quem trabalhou no DIA, e que tem um irmão portador da síndrome de Down. "Um processo desse tipo deixa a impressão de uma tentativa de silenciamento.Estou sendo punida por ter levado esse episódio para fora dos muros da faculdade. Fato assustador ao se considerar que estamos falando de uma faculdade de Comunicação Social", afirmou Elisa. A jornalista Kamille Viola também criticou a punição dada pela universidade. "Nós desabafamos nas redes sociais. O post foi muito compartilhado e acabou na imprensa. Se não tivesse repercutido assim, talvez nem tivesse tido qualquer atitude da faculdade. Com a repercussão, vários alunos relataram situações de preconceito na faculdade. As pessoas têm medo. E o fim dessa história só mostra que têm medo com razão",declarou. O Sindicato dos Jornalistas do Rio se solidarizou com Elisa e também atacou a Facha.

Elisa questionou o inquérito, que contou com a participação de professores colegas de Ana Lúcia Gregati,e afirmou que já esperava a relativização do preconceito. "Essa situação não me trouxe nenhum benefício, só uma exposição indesejada, dor de cabeça e uma injustíssima e arbitrária advertência. Mas também mostrou que ainda há gente lutando por uma sociedade justa", afirmou. A reportagem tentou entrar em contato com a professora Ana Lúcia Gregati, mas não houve retorno às ligações.

Outro lado

Dois dias após a publicação da reportagem, a assessoria da professora Ana Lucia Gregati entrou em contato e enviou a nota de resposta abaixo com sua versão dos fatos. 

Sobre a acusação feita pela aluna Elisa de Souza Pinto, a professora Ana Lucia Gregati informa que não cometeu nenhum tipo de preconceito, como foi comprovado no inquérito.

A professora é contra qualquer tipo de preconceito, além de ter consciência da responsabilidade de seu papel como professora e jornalista formadora de opinião e de futuros profissionais. Além disso, Ana Gregati alerta que a aluna infringiu todas as normas e éticas jornalísticas ao acusar sem provas.

Desde o dia da divulgação do texto da aluna, a professora vem recebendo ameaças em suas redes sociais.

Durante a apuração do inquérito acadêmico administrativo aberto pela Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA) foram ouvidos 16 alunos e 14 confirmaram, em seus depoimentos, que a professora não agiu de maneira preconceituosa. Cabe ressaltar que a apuração foi feita por meio de depoimentos dos alunos que estavam em sala de aula e presenciaram tal fato. 

A comissão responsável pelo inquérito contou com membros de integridade comprovada em todos os âmbitos de suas vidas, pessoais e profissionais. A professora não foi procurada pelos veículos de comunicação e preferiu aguardar a conclusão do inquérito para poder se pronunciar.



Você pode gostar