Das comunidades do Rio ao Japão, com carinho

Crianças fotografam rotina no morro e trocam cartões postais com jovens do Oriente

Por tamyres.matos

Rio - Uma ideia na cabeça, dúzias de câmeras digitais à disposição e comunidades doidas para experimentar novas sensações: essa mistura fez a cabeça de dezenas de jovens que vivem em 12 das 33 favelas pacificadas do Rio e também da japonesa Hikaru Nagatake durante todo o mês de julho, enquanto ela perambulou pelos morros. Em quatro horas de cada uma das aulas, Hikaro passou muito mais do que noções básicas de fotografia: ensinou cidadania.

“As crianças brasileiras fotografam muito bem”, derrete-se ela, que conheceu o Rio em 2003, na cobertura de uma das guerras do tráfico em Vigário Geral. “Antigamente, era mais perigoso para o turista andar aqui. Hoje, o Rio melhorou muito. Mas ainda vi crianças vendendo balas nas ruas”, comenta.

Anna Karla%2C Luana e Alessandra%2C na UPP da Providência%2C onde fizeram as últimas fotos do curso%3A interação com Hikaro encantou as amigas André Balocco / Agência O Dia

O projeto ‘Wonder Eyes’, que já passou pela Ásia e África, não se limita a ensinar fotografia aos meninos e meninas: promove a interação com crianças japonesas que passaram pela mesma experiência em seu país. Os jovens recebem as máquinas digitais, aprendem noções básicas, seguem para as ruas da comunidade e fotografam o que mais os agrada.

Depois, cada um dos participantes tem sua melhor foto selecionada e transformada num cartão-postal. Em seguida, eles escrevem uma mensagem ao destinatário, descrevendo a foto e por que ela chamou sua atenção, e a enviam a um jovem como ele do outro lado do mundo. A experiência encantou meninos e meninas, que se depararam com a escrita japonesa e precisaram de ajuda para entendê-las.

“Em setembro faremos um chat entre eles quando eu entregar estes cartões em meu país”, promete Hikaro.

Entender como é a vida em outro país encanta amigas na Providência

Estudar foto, entender como vive e pensa um adolescente japonês e, principalmente, aproveitar as oportunidades que aparecem na comunidade. Para isso, Luana Higino, 14, Alessandra Santos, 16, e Ana Karla Batista, 15, nascidas na Providência, estão sempre na sede da UPP da comunidade.

Hikaro (de jaqueta) posa com os alunos%3A fotógrafa acha que Rio evoluiuAndré Balocco / Agência O Dia

“Sempre me envolvo em tudo que acontece aqui”, conta Alessandra. “O curso me deu chance de conhecer a vida em outro país”.

A mesma ‘vida em outro país’ também atraiu Luana. O que mais mexe com sua curiosidade, no entanto, é saber como os japoneses reagirão à foto que transformou num cartão-postal. “Acho que vão gostar”, aposta a menina, de olho no chat que acontecerá em setembro.

“Aprendi até a como segurar a máquina”, fala Anna Karla. “O momento certo, o ângulo. Gostei tanto que vou virar fotógrafa”. Se encontrou ou não a vocação profissional, só o tempo dirá. Enquanto isso, a ideia é aproveitar. Ao máximo.

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