Por felipe.martins

Rio - Um projeto piloto, que acontece no Morro Santa Marta desde o início de fevereiro, pode mudar a máxima de que a Polícia Militar deve atuar apenas na repressão ao consumo de drogas. Sem alarde, policiais da UPP local estão aprendendo a enxergar o usuário como um doente que precisa de orientação para se livrar do vício, e não como inimigo. O curso, da Secretaria Estadual de Prevenção à Dependência Química (Sepredeq), propõe mostrar que a ajuda pode ser alcançada nos postos de saúde e centros de recuperação da dependência química, sejam do estado ou município.

“Em janeiro, um pai veio à UPP com o braço ferido, após ser agredido pelo filho usuário de drogas. Ele estava com medo de ser assassinado, ou de matá-lo para se defender, e pedia ajuda. Não podia simplesmente dizer que esperasse o crime ocorrer para nos chamar, o que é o procedimento padrão”, conta o comandante da unidade, capitão Márcio Rocha.

O comandante Márcio Rocha%2C à frente da tropa%2C assiste a uma das palestras do curso na sede da UPP Divulgação / Márcio Rocha

Dali para a frente tudo mudou. Rocha desceu até o Centra-Rio (Centro de Tratamento da Dependência Química), na Rua Dona Mariana, em Botafogo, conversou com a secretaria, a Clínica de Família da favela, e foi até o Credeq (Centro de Recuperação de Dependentes Químicos), em Campo Grande. Lá, sem farda, almoçou com os internos, visitou as instalações e percebeu que havia vagas ociosas.

“É muito diferente do que a gente imagina quando pensa numa clínica”, diz. “É limpa, organizada. Constatei que há um serviço disponível não utilizado por falta de informação”, explica Rocha.

O primeiro módulo do curso terminou de ser aplicado sexta-feira. Divididos em quatro turmas, 100 policiais aprenderam sobre como agir caso recebam um pedido de ajuda, e a qual unidade de saúde encaminhar o caso. Foram duas horas de aula para cada grupo. Além da orientação, serviram também para mostrar que nem sempre a força bruta ajuda. “Antes, quem estava no território não sabia o que falar a quem sofria com isso.”

Para Rocha, quando o usuário entende que seu problema é de saúde, enfraquece o tráfico, pois deixa de financiá-lo. “É exatamente isso que a PM busca”, resume.

Comandante aposta em expansão para outras favelas

O sucesso do curso, que segundo o comandante Márcio Rocha já resultou em um encaminhamento de um morador de rua que vivia na comunidade, pode multiplicar a iniciativa por outras UPPs. Este é o objetivo da Secretaria de Prevenção à Dependência Química, que luta para mostrar a importância de seu trabalho. “Nosso objetivo é expandir o projeto”, conta Carlos Castro, coordenador do Observatório de Gestão e Informação Sobre Drogas.

No dia 6 de fevereiro, o governador Luiz Fernando Pezão publicou no Diário Oficial resolução que cria comissão com 14 secretarias para avaliar as políticas públicas dentro das favelas pacificadas. O trabalho no Santa Marta é o piloto e uma das joias a serem apresentadas no grupo de trabalho.

Márcio Rocha aposta que o projeto tem tudo para entrar na grade curricular da formação de policiais. “Vamos oferecer a outras UPPs”, afirma o comandante. “Este serviço se reflete na relação do morador com a gente, porque mostramos que nos importamos com eles”, encerra Márcio Rocha.

Próxima aula trará efeitos sobre a mente

Encerrada a primeira fase do curso, semana que vem os policiais aprenderão sobre os efeitos que cada droga produz em quem a utiliza. Segundo o secretário de Prevenção à Dependência Química, Filipe Pereira, há muitas diferenças entre maconha, cocaína, crack e êxtase, por exemplo.

“É importante que o policial entenda as reações que uma abordagem pode provocar”, diz Filipe, à frente da secretaria desde sua criação, em 2013. “O usuário de cocaína pode ter uma reação brusca ao ser abordado, e o policial precisa entender que isto não é uma ameaça à sua integridade física.”

Segundo o secretário, a droga está em todos os cenários sociais. “Ela não tem classe social. O maior perigo é a falta de informação. As pessoas ainda sentem vergonha de dizer que têm problemas em casa”, afirmou.

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