Festival Vale do Café recria atmosfera de auge das fazendas e envolve 14 cidades

O ponto alto do evento acontece a partir da próxima semana, com mais de 30 concertos, sendo 14 pagos nas fazendas e os demais gratuitos em casarões, igrejas e praças públicas

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Vassouras, meados do século XIX. O barão e a baronesa recebem convidados em sua suntuosa fazenda para um sarau, seguido de um café colonial servido por suas mucamas. O programa musical era típico da aristocracia rural, que copiava hábitos e costumes da cultura européia, presente também no modo de vestir e na decoração dos solares imperiais. Com o fim da escravidão, as fazendas da região do Vale do Paraíba, rica produtora de café, entraram em decadência.

Clima%3A Fazenda Florença%2C em Conservatória%2C espera público de concerto com sarau da época e escultura de Caymmi%2C homenageado do festivalWellington Santiago / Agência O Dia

Passado um século e meio, muitas residências rurais elegantes, que sobreviveram à ação do tempo, se tornaram destino de quem aprecia o turismo histórico e cultural. Abertas à visitação, algumas inclusive para hospedagem, elas revivem a tradição musical com iniciativas como o Festival Vale do Café, que há 12 anos movimenta a região turística que leva o mesmo nome.

A programação da edição 2014 começou na última segunda-feira, com oficinas para 350 jovens músicos de todo o país, mas o ponto alto acontece a partir da próxima semana, com mais de 30 concertos, sendo 14 pagos nas fazendas e os demais gratuitos em casarões, igrejas e praças públicas.

São esperadas 80 mil pessoas nas atividades até dia 27 em 14 cidades: Vassouras, Valença,Rio das Flores, Paty do Alferes, Miguel Pereira,Engenheiro Paulo de Frontin, Paracambi,Mendes, Barra do Piraí, Piraí, Pinheiral, Volta Redonda, Barra Mansa e Resende (Visconde de Mauá).

Ao ar livre, músicos do quilate de Nicolas Krassik, Gilson Peranzetta, Mauro Senise e Joanna vão se apresentar, além da harpista Cristina Braga, idealizadora do festival, e do violonista Turibio Santos, diretor artístico do evento. Neste ano, a programação homenageia Dorival Caymmi, por seu centenário. E a cantora Fafá de Belém, que já gravou “Peguei um Ita no Norte” em songbook de Caymmi, será a solista, ao lado da Orquestra Sinfônica de Barra Mansa. Também prometem impressionar os 60 jovens talentos da Orquesta de Comunidades Pacificadas, do Rio.

Rico patrimônio de Conservatória, distrito de Valença, a Fazenda Florença abre as apresentações rurais, com a pianista Bianca Gismonti dia 18. “Para encantar ainda mais o público, levando a atmosfera da Bahia para a fazenda, haverá um sarau teatral e musical, que mostrará três passagens de Caymmi pela região, além de apresentação de jongo”, conta o proprietário Paulo Roberto dos Santos.

Cristina Braga%2C que criou e festival%2C e Turíbio Santos%2C coordenador artísticoPaulo Rodrigues / Agência O Dia

Uma escultura em papel, em tamanho natural, de Dorival já octogenário, vai compor o cenário. A fazenda servirá um brunch inspirado nas delícias da Bahia, assinado pela pesquisadora de gastronomia histórica Ana Roldão.

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Ex-programa de elite hoje é disputado

Ao longo dos anos, o festival que chegou a ser considerado programa de elite, se popularizou, levando música de qualidade a um ambiente inspirador. A programação, basicamente instrumental, envolve vários ritmos, do choro à música clássica, passando pelo jazz, bossa nova e samba. “O festival é sui generis, por acontecer em fazendas preservadas, turísticas e românticas. A veia artística da região é muito forte”, diz Turíbio.

O crescimento do evento pode ser medido em números. O gasto médio dos frequentadores passou de R$ 200 em 2007 para R$ 560 em 2013, segundo pesquisa do Sebrae/RJ. A adesão dos municípios a cada ano também revela a força da iniciativa, que hoje recebe investimentos de R$ 3,5 milhões, com muitos patrocinadores. “O festival injeta dinheiro na economia local e incentiva o turismo”, conta o diretor do evento, Nelson Drucker.

Mostra revela rica memória das fazendas

Hotéis da região ficam lotados durante o festival. A maioria (85%) é do Rio de Janeiro, mas há muitos visitantes também de Minas Gerais e de São Paulo. Já as fazendas promovem atividades paralelas, com objetivo de atrair os visitantes a voltar em outras ocasiões. Após 10 anos de restauro, a São Luiz da Boa Sorte, em Vassouras, abre as portas dia 20 para a segunda edição do Casa Real, mostra com entrada gratuita que deve receber 5 mil pessoas até dia 27.

Programação de qualidade é sucesso também em praças públicasPaulo Rodrigues / Agência O Dia

“Símbolo de opulência e riqueza características da época em que o café sustentou a economia do país, a fazenda faz um resgate da memória da região, expondo mobiliário e obras de arte dos séculos XVIII e XIX”, diz a proprietária Liliana Rodrigues.

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