Jaguar:  ‘Não fui eu’

A cara do Brasil é a das figuras sinistras que vimos por dias em cadeia (boa ideia) nacional

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Até agora, na minha opinião, é a frase do ano. Pichada num muro em Botafogo, perto do São João Batista. Será alguma campanha do Washington Olivetto, que bolou “o primeiro soutien ninguém esquece”? Mas poderia ser o Cunha, o Odebrecht, o Dunga, os engenheiros que assinaram os projetos da Ciclovia da Niemeyer e da Barreira da Samarco, o Lula, o Temer, a Dilma, o Japonês da Federal e os demais. “Não fui eu”, dizem. Ninguém assume nenhuma culpa. 

Por falar no japa, a notícia de que foi preso por aceitar suborno de contrabandistas pulverizou minhas últimas esperanças. Logo ele, que prendeu tantos graúdos. Amanhecia na porta das mansões dos figurões e os escoltava até o camburão algemados, coisa nunca vista, de lavar a alma da patuleia. Inclusive melou uma charge que fiz. Mostrava um empresário corrupto reclamando ao ser preso pela PF: “Cadê o japonês?

Todos os outros foram presos por ele. Por que não eu também?” Ser preso pelo japa de Ray-Ban dava status. Uma coisa me intriga: tem lugar para todo esse pessoal nas cadeias? Os jornais sempre criticaram a superlotação das prisões. Lembrei-me de charge que fiz há pouco tempo: empreiteiro pergunta ao juiz que o condenou: “ Pelo menos posso construir o presídio onde vou cumprir pena?”Cazuza morreu sem saber como era a cara do nosso país: “Brasil, mostra a sua cara\/ quero ver quem paga pra gente ficar assim\/Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim/ Não me convidaram pra esta festa pobre/ que os homens armaram pra me convencer/ a pagar sem ver toda esta droga\que já vem malhada antes de eu nascer”. O garoto teve a sorte de morrer sem saber.

A cara do Brasil é a das figuras sinistras que vimos por dias em cadeia (boa ideia) nacional, mentindo, vomitando nos pratos em que comeram, num festival de punhaladas pelas costas, também em nós que os elegemos. Somos todos culpados, ninguém pode tirar o corpo fora: do deputado que xingou, na frente do ‘Conselho de Ética’, o colega de “ladrão safado” à inacreditável Tia Eron. Para não falar no vocabulário de suas excelências, chulo e parco. Fundo musical da ópera-bufa: “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”, do grande malandro (este, sim, no bom sentido) Bezerra da Silva.


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