Tocando em frente

Leo atende aos que pedem foto. Sorri, gentilmente. Sabe que a arte não combina com arrogâncias

Por Gabriel Chalita Professor e escritor

-

Era uma noite como outra qualquer. Nenhuma noite é como outra.

Era um bar em um lobby de hotel.

Era uma cantora que, no repertório, cantava sobre histórias de amor.

Estavam lá Jacob e alguns amigos. Falavam apenas nos intervalos. Quando cantava, a cantadora, ficavam fitos no seu enigmático feito de artista.

Nascida em Buenos Aires, a cantora gosta desses espaços menores. Gosta de cantar sussurrando e de dizer alguns ditos de amor.

Jacob é um mestre na arte do amor. Conhece a alma humana e suas dores. Gosta de falar sobre a mente, seus dilemas, suas superações.Gosta também da amizade. Une pessoas e sonhos. Tudo leve como uma canção.

A cantora passa dos tangos espanhóis para as cantigas francesas. E, depois, solta uma brasileira.

Na plateia, um grande cantor, Leo, amigo de Jacob, resolve se levantar e cantar junto.

"Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais". Leo e a cantora e os músicos prosseguem. Juntos.

Jacob observa. A mente humana é capaz de atos perversos, de ódios, de perseguições, de arrogância. Mas é capaz também de romantismos, de encantamentos, de amor. Andar devagar ajuda a compreender a marcha da vida e a contemplar os cenários que sempre nos surpreendem, se temos olhos de ver.

Os garçons conhecem Leo e param para ouvi-lo.

"Todo mundo ama um dia, todo mundo chora".

Parecem concordar com a cabeça.

Jacob recebe, em seu consultório. lamúrias de amor e esperança. Quem sente dor quer o presente dos alívios. Quem chora quer voltar a perceber um luar, se possível acompanhado. Quem foi trocado, traído, sonha em prosseguir tocando em frente. "É preciso chuva para florir".

Jacob interrompe um pouco a atenção e comenta sobre a bela metáfora. Dois filhos de Jacob estão com ele. Olham para o sábio pai com orgulho. Ouvem a canção com entrega.

Amanhã será outro dia. Nenhum dia é como o outro.

Amanhã, os que estavam ali se lembrarão de que "cada um de nós compõe a sua história".

Terminam a canção.

Leo atende aos que pedem foto. Sorri, gentilmente. Sabe que a arte não combina com arrogâncias. É simples. Simples como o sábio Jacob. Simples como um caminhar pé ante pé ao destino que se quer chegar.

Dormi iluminado naquela noite. Havia luar.

Galeria de Fotos

Gabriel Chalita, colunista do DIA Divulgação

Comentários

Últimas de Opinião