Marcus Tavares: vale tudo pela audiência

A pergunta é: realmente precisamos 'consumir' tais conteúdos? Ah, isso é entretenimento, são apenas histórias. Sim, é verdade. Mas o fato é que tanto um programa quanto o outro mexem com valores e imaginários

Por Marcus Tavares Professor e jornalista

Marcus Tavares, colunista do DIA -

Rio - Embora a audiência da programação audiovisual da TV por assinatura e dos produtos oferecidos via streaming seja significativa nos centros urbanos do país, a grade da tevê aberta ainda é a que alcança a maior parte da população. De acordo com dados do IBGE, 97% dos domicílios brasileiros têm ao menos um aparelho de televisão. Deste total, somente cerca de um terço (33,7%) possui serviço de TV por assinatura. Ou seja: o que é transmitido na tevê aberta ainda gera bastante impacto no dia a dia da sociedade brasileira. Não é sem razão que boa parte da fatia de publicidade (53,6%) ainda se concentra nesta mídia.

Ter cuidado e responsabilidade com o que é exibido deveriam ser uma missão das emissoras deste segmento. Mas sabemos que isso não é o que acontece. Em nome da liberdade de expressão, leia-se 'audiência', parece que tudo vale.

No último domingo, me surpreendi com o novo programa da Rede TV!: Conexão Models Renata Kuerten. Às 18h30, modelos, divididos entre homens e mulheres, disputam provas. De que tipo? Tem aquela clássica (os leitores mais experientes vão lembrar) da banheira, onde os 'gatos' e 'gatas' procuram pelo sabonete. Há ainda as provas de futebol de sabão, cadeira elétrica e o que mais impressiona: strip quiz. Nesta, se o modelo(a) não responder corretamente à pergunta, ele/ela perde uma peça de roupa e vai para uma espécie de biombo, onde aparece somente a sua sombra/silhueta. Lá, ele/ela tem que fazer um strip-tease. Isso tudo às 18h30 de domingo. Sei que esta hora, muitas crianças e jovens - que podem - estão nos seus celulares, tablets, computadores, talvez, assistindo, inclusive, a conteúdos mais pesados, sem a devida vigilância de seus responsáveis. Mas isso não é nem pode ser justificativa para as emissoras - que são concessões públicas - exibirem o que quiserem.

Outro exemplo? Bem, teríamos vários. Aqui vai mais um: a nova novela da Rede Globo. Em Segundo Sol, uma das personagens principais, Laureta, interpretada por Adriana Esteves, é uma 'promoter' de eventos. De acordo com o perfil do personagem, publicado no site da novela, "seu espectro de relacionamentos vai desde políticos, artistas famosos e empresários ricos até bandidos e figuras do submundo. A profissão de promoter é fachada para agenciar garotas e garotos de programa de luxo para clientes selecionados". Assisti a um capítulo, onde bonitos garotos e garotas, reunidos numa grande mesa, comiam e se divertiam, sem se preocuparem com a vida, com estudos, com o futuro, com o trabalho, com o dia de amanhã. Preocupação somente com o corpo. Vida boa, fácil e rica, sem sobressaltos. Um mundo convidativo, não?

A pergunta é: realmente precisamos 'consumir' tais conteúdos? Ah, isso é entretenimento, são apenas histórias. Sim, é verdade. Mas o fato é que tanto um programa quanto o outro mexem com valores e imaginários. Reforçam ideias, ideais e mostram uma ficção muito, mas muito longe da realidade. Poderíamos - e com certeza desejamos - ser seduzidos por outras narrativas, mais interessantes e inteligentes. Narrativas que sejam capazes de abrir e qualificar nossos horizontes, repertórios e conhecimentos. Ninguém percebe isso?!

Marcus Tavares é professor e jornalista

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