Ediel: Dirceu, o paranoico

Dirceu era admirado pela patota do 'O Pasquim', especialmente, pelo Henfil, que se inspirou em sua paranoia com o regime militar para criar o personagem 'Ubaldo, o paranoico'

Por O Dia

Ediel Ribeiro, jornalista, caricaturista e colunista do DIA -

Rio - Outro dia, fiquei sabendo pelo escritor Zuenir Ventura que o jornalista escritor e cartunista mineiro Dirceu Ferreira, exilado há mais de 20 anos em Araxá, sua cidade natal, lançou mais uma de suas obras, o livro 'Tirem a piscina que eu quero pular', com ilustrações do Nani, outro mineiro talentoso.

Antes, havia publicado os livros 'Édipo é a Mãe', 'Minhas Marilias e seus nomes de guerra', '...Mas podem me chamar de Woody Allen' e, recentemente, a coletânea 'Máximas do Dirceu', onde ele reúne centenas de frases divertidas e corrosivas sobre o cotidiano do brasileiro.

Entre elas, uma que eu gosto muito: "O homem não veio do macaco. Vem vindo".

Conheci Dirceu através de seu trabalho na revista 'Almanaque do Humordaz', feita por um punhado de cartunistas mineiros - entre eles Lor, Dirceu, Nilson e Afo -, que uma prima minha me mandava de Minas.

Dirceu foi trazido para 'O Pasquim' nos anos 60, pelo Ziraldo. Publicou na 'Folha de São Paulo', no 'Estado de Minas' e no 'Correio de Araxá', onde começou a carreira de jornalista.

Dirceu era admirado pela patota do 'O Pasquim', especialmente, pelo Henfil, que se inspirou em sua paranoia com o regime militar para criar o personagem 'Ubaldo, o paranoico'.

Na orelha do livro 'Cartas da Mãe', Henfil desenhou o Ubaldo e dedicou ao amigo.

O próprio autorretrato do escritor já revela sua faceta humorística: "Meu nome é Dirceu Alves Ferreira. Nasci em Araxá, Minas Gerais (e os leitores vão me perdoar a dupla esnobação), em 1941. Quanto à minha velhice em si, embora alguns a vejam como uma fase bela, juro que jamais sentirei saudades dela. Por causa da minha faixa etária, inclusive, um geriatra amigo meu me garantiu que, se eu continuar envelhecendo como estou, inevitavelmente sofrerei distúrbios fisiológicos que me levarão à morte. Ainda vivo por pura rejeição do lado de lá (rejeição dele, não minha). Politicamente, sou de esquerda, embora a direita diga que ela não existe. Acho o capitalismo selvagem um pleonasmo.

Amante da liberdade, esse foi um segredo que guardei durante toda a época da ditadura. A respeito do aquecimento global, entendo que em breve só existirá ovo frito e meu entusiasmo pela flora e pela fauna se justifica porque sou saudosista.

Considero-me um feminista mais convicto que qualquer mulher, sendo por isso chamado de machista.

Confesso que não sou dono da verdade, apenas a alugo. Afinal, confiando que o fim do mundo é pura invenção de realistas, garanto que sou muito otimista em relação ao passado."

Espero que, mesmo auto exilado, Dirceu continue a escrever e a publicar seus textos e desenhos.

Com paranoia ou sem.

Ediel é jornalista e escritor

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