Elza Soares, sobrevivência e eleições

O (obrigatório) musical 'Elza', em cartaz no Teatro Riachuelo, sobre a vida da monumental Elza Soares, expõe e decodifica importantes pautas em ano de eleição

Por Jornalista, Fábio Fabato

Fábio Fabato
Fábio Fabato -

Rio - O (obrigatório) musical 'Elza', em cartaz no Teatro Riachuelo, sobre a vida da monumental Elza Soares, expõe e decodifica importantes pautas em ano de eleição. "Sobreviver é um ato político", proclama a protagonista para uma plateia atônita ante verdades nada secretas, mas que seguem camufladas pelo discurso oficial elitista de um país dividido na régua entre poucos desde as capitanias: o racismo histórico, a violência contra a mulher, o desnível social.

O texto, quando falamos do povo brasileiro, está contemporâneo há 518 anos. Ora, quem ganhar o pleito de outubro tem um desafio prático, mas também semântico: reinventar a visão sobre o que é dito "gasto", transferindo o seu sentido para "investimento", independentemente da visão econômica (mais a Keynes ou ao Neoliberalismo).

Urge - finalmente - um projeto de nação de longo prazo para que as pessoas de toda cor, gênero e crença desse gigante miscigenado ainda tão adolescente consigam proteção e liberdade de voo como garantia de qualquer natureza de governo.

O caminho passa obrigatoriamente pela educação de base, e vou me fixar em ramificações a esta diretamente acopladas: ciência, cultura e esporte. Durante a 70ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Finep e CNPq, agências federais de fomento científico, apresentaram os seguintes dados: ocupamos a 13ª posição em produção de pesquisa, mas amargamos a 69ª em inovação - que é a transferência do conhecimento para a vida prática, impulsionando a economia a partir do que se produz no ambiente acadêmico.

No tocante aos recursos para instituições científico-tecnológicas, foi catastrófica a redução do volume que vem do seu fundo-fonte nos últimos quatro anos: de R$ 4 bi (2013) para menos de R$ 1 bi em 2017.

Em síntese, estamos produzindo ciência teórica para "inglês" ver. E usando na prática a de fora, dado o êxodo de cérebros motivado pela falta de recursos para laboratórios e novas companhias fincadas em tecnologia, bem como a possibilidade de redução de bolsas: em razão da sinalização de cortes orçamentários, ofício enviado no final de julho pelo Conselho Superior da Capes para o Ministério da Educação alertou que quase 200 mil bolsistas poderiam ficar sem apoio a partir de agosto de 2019. E se sobreviver é mesmo um ato político, antes de tudo, é preciso que nasçamos com alguma perspectiva. Mas o país que se diz inclusivo insiste em queimar a largada.

Um dos maiores desvios de caráter do Brasil foi desaconselhar os seus a sonhar. E objetivamente desmotivá-los para a citada ciência, para a arte e para o esporte, todos ainda sem o carimbo de arcabouço de um projeto socioeconômico estruturante. "Ok, seja ator, mas... Trabalhe também, né?", eis a máxima recorrente. E o cientista - este inatingível, bastante associado a um tipo de estética a léguas da vida real e das escolas públicas? Se, nos procedimentos de decolagem, seguirem calando a alma do brasileiro, jamais seremos vitoriosos. A cultura, por exemplo, representa apenas entre 4 e 6% do PIB nacional. E não foi operada até hoje na centralidade da administração do Estado, a despeito de nossa vocação popular e diversidade. Sobreviver como ato político, contra tudo e todos - eis o que restou.

Todo governo que se preza estimula com recursos públicos ciência pura/inovação, artes e esportes. Do Vale do Silício, nos EUA, passando pela China, até a equipe da Grã-Bretanha, que foi mais bem-sucedida nos Jogos Olímpicos de 2016 do que esperavam os próprios atletas (investimento público direto e indireto de 350 milhões de Libras - cerca de R$ 1,5 bilhão). Enquanto temas prioritários vestirem fantasia paliativa na forma como se desenha o pensamento crítico do Brasil, patinaremos. Não censuremos capacidades e horizontes. E sensibilidade, é claro.

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