Gabriel Chalita: O Dia dos Pais

As lembranças que ficam não são as materiais. São as dos laços preparados por artistas da alma

Por Gabriel ChalitaProfessor e escritor

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Do que se lembram as pessoas, quando estão partindo?

Um amigo, com olhos marejados, falou da despedida de seu pai em uma cama de hospital. Os quatro filhos estavam lá. A mulher, também. E as duas noras.

Era o entardecer de um domingo. E foi a última vez que se falaram. O pai, com a voz em despedida, lembrou da festa de casamento. Apertou, com as forças que tinha, a mão da mulher e conseguiu ainda um sorriso. Ele havia se atrasado. Por causa da mãe. A mulher ouvia e mexia a cabeça em concordância. Depois, os nascimentos dos filhos. As preocupações. O tombo de um. A catapora de outro que passou para os outros. E a voz foi falhando. Os olhos, então, se fecharam. Junto com o Sol. Era noite quando mãe e filhos se abraçaram e choraram juntos. A doença os havia preparado para esse momento. "Não. Ninguém está preparado!", foi o que disse o filho mais novo. 

Meu amigo prosseguiu dizendo que é o primeiro dia dos pais sem o seu pai.  Meus pensamentos viajavam, enquanto ele falava, pelo meu pai. Faz muitos dias dos pais que não o tenho comigo. Que não posso brincar com ele de quem tem as mãos maiores, que não posso preparar um sanduíche especial, ele gostava dos meus fazeres na cozinha. Faz tempo que só converso com ele em pensamento. Quando estou triste. Quando estou feliz. Em muitas conquistas na minha vida, eu olhava para frente e desejava profundamente que ele estivesse ali. Quem sabe?! Há entre os mundos que habitamos uma cortina de amor chamada mistério.

Quando fui ao Líbano lançar um livro e receber homenagens, eu vi meu pai muitas vezes. Era como se bebêssemos juntos a água limpa da fonte de onde tudo começou.  As lembranças que ficam não são as materiais. São as dos laços preparados por artistas da alma. Os enfeites da nossa existência estão no ordinário da vida, no cotidiano comum. De um filho que cai e chora. De um pai que prepara o café.

De crianças viajando no banco de trás de um carro e cantando. Na brincadeira de esconde-esconde embaixo de um lençol qualquer. 

Meu pai gostava de uma cadeira de balanços de que seu pai também gostava. Ali, ele rezava. Ali, ele ouvia os discursos que eu fazia quando criança em cima de uma mesa. E ria. Dizia que eu inventava palavras. Eu gostava do seu riso. E, por isso, inventava mais. 

Quando os meus livros foram sendo publicados, ele os lia. E relia. E comentava. E amava.

Seu amor estará comigo no dia de hoje. O amor não se despede. Permanece.

Ao final da conversa com meu amigo, falamos sobre isso. Sobre a memória. Sobre o presente que é ter memória.

Enquanto escrevo, vejo, depois de tantos anos, o sorriso do meu pai. Suas mãos grandes acariciando meu rosto. Seu convite a nunca deixar de ter fé. Quanta fé teve meu pai! Mesmo em seus calvários, mesmo na partida dos filhos que foram antes dele, ele agradeceu a Deus o tempo da convivência. 

Do que se lembram as pessoas quando estão partindo? Dos escritos que ficam registrados na alma. E que permanecem, miraculosamente, depois das chuvas, depois das noites prolongadas.

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Gabriel Chalita, colunista do DIA Divulgação

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