Eugênio Cunha: Educação e emancipação

O preparo científico e as possibilidades de melhoria social não devem ser privilégio de uma elite abastada. Aceitar essa situação é um grande equívoco que desampara os mais pobres

Por O Dia

Eugênio Cunha, colunista do DIA
Eugênio Cunha, colunista do DIA -

Rio - Na educação, de quando em vez, ouvimos histórias de superação protagonizadas por jovens que vivem em grande desvantagem social.

Simples, sozinhos, sem recursos, residindo em áreas de risco, às vezes em condições de pobreza, conseguem mudar suas expectativas de futuro, não aceitando a sorte traçada para eles em razão do contexto socioeconômico. Não é incomum, nesses casos isolados, o apoio de educadores conscientes dos valores do ensino escolar.

Observando essas excepcionalidades, podemos imaginar quantos talentos foram desperdiçados em nosso país porque ficaram obscurecidos. Não tiveram um apoio necessário e essencial para alavancar seus projetos e sonhos. A estatística de insucessos é extremamente notória.

O nosso fracasso educacional é estrutural, decorrente de anos de descalabro e descaso. Serão necessárias décadas para superar esse quadro.

Para termos uma ideia do fosso em que estamos, um relatório publicado recentemente pelo Banco Mundial, com base no desempenho dos estudantes brasileiros em todas as edições do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), estima que o Brasil demorará 260 anos para atingir o nível educacional de países desenvolvidos em Leitura, e 75 anos em Matemática.

Porém, como nas situações que fogem à regra, podemos fazer a diferença para muitos jovens e crianças que estão alijados do processo educacional por questões diversas.

Creio que nós, educadores, podemos contribuir para que muitos estudantes que são vítimas das desigualdades sociais superem suas dificuldades. São ações inclusivas em nosso trabalho, nas escolas ou nas universidades. Como já afirmava Paulo Freire, seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitisse às classes dominadas a percepção das injustiças de forma crítica.

Ainda assim, podemos fazer o oposto. Nas palavras do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: "De quem depende que a opressão prossiga? De nós. De quem depende que ela acabe? De nós".

O preparo científico e as possibilidades de melhoria social não devem ser privilégio de uma elite abastada. Aceitar essa situação é um grande equívoco que desampara os mais pobres. Um país se constrói com a participação de toda nação, onde a educação, na prática, não pode ser prerrogativa de alguns, mas direito de todos.

Eugênio Cunha é professor e jornalista

 

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