Ediel: Saudades de Wilson das Neves

Das Neves dizia que virou cantor por acaso. Com várias composições prontas, resolveu fazer um disco para mostrar suas músicas ao grande público

Por Ediel Jornalista e caricaturista

Ediel Ribeiro, jornalista, caricaturista e colunista do DIA -

Rio - Foi no ano passado. Num dia frio de agosto que Wilson das Neves foi tocar no céu. Baterista, percussionista, cantor e compositor, Das Neves - como era conhecido - era um dos mais talentosos bateristas do Brasil. Festejado e querido em todo o meio musical.

Conheci 'Seu Das Neves' nos anos 1980, numa churrascaria que eu tinha em São Cristóvão. Lá, rolava uma roda de choro e samba, comandada pelo músico Zé da Velha. Wilson das Neves morava no bairro, e passou por lá para rever os amigos. Cantou um dos seus sambas, acompanhado, entre outros, por Zé da Velha, Silvério Pontes e Cláudio Camunguelo e foi embora como chegou: sorrindo e repetindo seu famoso bordão "Ô sorte!".

O baterista nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, e começou tocando atabaque, aos 12 anos, na casa de uma tia que era mãe de santo. Estudou música com o maestro Joaquim Naegele e, aos 14 anos, através do ritmista Bituca foi tocar na Escola Flor do Ritmo, no bairro do Méier.

Começou a carreira profissional aos 18 anos, tocando bateria na orquestra de Perminio Gonçalves.

Estreou como músico de estúdio na gravadora Copacabana Discos, onde participou de cerca de 800 discos, com grandes nomes da música nacional e internacional, como Chico Buarque, Roberto Carlos, Elza Soares, Elis Regina, Sarah Vaughan e Michel Legrand, entre outros. Como compositor, foi parceiro de Aldir Blanc, Nei Lopes, Paulo César Pinheiro, Claudio Jorge, Ivo Lancellotti, Moacyr Luz e Chico Buarque.

Começou a fazer música já muito tarde. Tímido, nunca mostrou suas composições para ninguém. Achava que o que fazia era 'boi com abóbora' (música sem valor) e não tinha coragem de mostrar aos grandes nomes da música, com quem trabalhava. Um dia, criou coragem e mandou quatro músicas para o compositor Paulo César Pinheiro, entre elas, 'O samba é meu dom', um de seus maiores sucessos, gravado recentemente na voz de Zeca Pagodinho.

No início dos anos 1960 gravou seu primeiro disco, 'Juventude 2000'. Em 1969, gravou 'Som Quente é o Das Neves', seu segundo disco pela gravadora Polydor. No ano seguinte, desta vez pelo selo Elenco/Philips, gravou o LP 'Samba Tropi - Até aí morreu Neves', com arranjos do maestro Erlon Chaves.

Tempos depois, já com 60 anos, gravou pela gravadora Underground/Copacabana, com arranjos feitos por João Donato e pelo tecladista Sérgio Carvalho, 'O Som Quente é o Das Neves' seu terceiro disco, no qual estreou como cantor.

Das Neves dizia que virou cantor por acaso. Com várias composições prontas, resolveu fazer um disco para mostrar suas músicas ao grande público. Levou para a gravadora as músicas gravadas com sua voz, numa fita cassete. Queria que fossem gravadas por uma cantora, mas o produtor resolveu gravar como estava. Com isso, como intérprete, ganhou o Prêmio Sharp, na categoria revelação e foi indicado para o Grammy Latino em 2010. Concorreu e ganhou os prêmios de melhor álbum e cantor revelação concorrendo com nomes como Jorge Aragão e Zeca Pagodinho.

Em 1996, gravou o LP 'O Som Sagrado de Wilson das Neves', com participações de Paulo César Pinheiro e Chico Buarque, lançado pela gravadora CID.

Foi levado para o Império Serrano pela mãe, que era da ala das baianas da escola. Imperiano de coração, foi ritmista, diretor de bateria e vice-presidente da verde e branco de Madureira. Morreu num sábado, dia 26 de agosto de 2017, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, mas sua música continua viva.

Ô sorte!

Ediel é jornalista e caricaturista

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