Júlio Furtado: Abaixo a letra de mão!

Por Júlio Furtado Professor e escritor

Júlio Furtado, colunista do DIA
Júlio Furtado, colunista do DIA -

Aprender a ler e a escrever é, talvez, uma das mais complexas tarefas do ser humano. Antes disso, a criança vive num mundo indecifrável onde somente os privilegiados que sabem ler e escrever conseguem penetrar.

Fui alfabetizado numa época em que tive que aprender a complicada letra de mão ao mesmo tempo em que aprendia a reconhecer as letras, seus sons e suas junções.

Sou fruto da escola dos movimentos caligráficos do jardim de infância. Os "'morrinhos" preparavam para escrever o "n" e o "m", os lacinhos, o "e" e o "l", as ondinhas, antecipavam o movimento do "c". Isso tudo num contexto do caderno de caligrafia que antecipava o prêmio aos que teriam letra bonita e as críticas aos de letra feia.

Alguns especialistas mais radicais responsabilizam a letra de mão pelo índice de analfabetismo no Brasil. Baseiam sua afirmação no fato de muitas crianças terem dificuldade de aprender a ler e a escrever ao encararem a difícil tarefa de desenhar letras cheias de curvas e laços.

O fato é que já é consenso entre a maioria dos educadores que a letra bastão ou de forma é a mais indicada para a aprendizagem da leitura e da escrita, pois, além de ter traçados mais simples e manterem uma certa uniformidade, mesmo entre os diferentes estilos, estão quase que onipresentes no mundo, o que soa bem mais democrático. A criança reconhece com mais facilidade as letras em cartazes, letreiros, livros, jornais e revistas, o que favorece a aprendizagem da leitura.

A Neurociência defende que a letra de mão acelera o desenvolvimento motor da criança, mas também reconhece que outras atividades podem suprir essa falta. Outro argumento a favor da alfabetização através da letra de mão é que a aprendizagem desse tipo de letra ajuda a criança a manter uma maior concentração, o que é desejável nessa fase.

Em contrapartida, surgem as evidências de que a escolha dos textos e o próprio contexto em que se desenvolve o processo podem e devem ser os principais garantidores do interesse da criança.

Por fim, a letra de mão pode ser ensinada depois que a criança já está alfabetizada. Nessa fase, ela estará livre para aprender as letras cheias de curvas e laços sem prejuízo à aprendizagem da leitura e da escrita, desenvolvendo assim sua própria letra. Antes disso, porém, abaixo a letra de mão!

Júlio Furtado é professor e escritor

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