Para além do 20 de novembro

Por Ivanir dos Santos Babalawô

Ivanir dos Santos, babalawô e interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, colunista do DIA -

Mês de novembro, e lá vem inúmeros convites para que nós, homens e mulheres negros e negras, participemos de rodas de conversas, mesas de debates ou proferir palestras sobre o tema "consciência negra".

Obviamente, as nossas participações nesses eventos implicam, diretamente e indiretamente, na ação de ocupação de espaços nos quais, em vários momentos, somos invisibilizados.

Entretanto, para além da ocupação dos espaços, por nosso negros corpos, uma questão paira no ar: "Por que os temas das negritudes ganham uma maior e significativa relevância, principalmente nos espaço de formação intelectual, apenas no mês de novembro?".

Primeiramente precisamos compreender que por trás dos questionamento do "por que" necessitamos de datas, ações memorativas e rememorativas das estórias e histórias de personagens negros no Brasil. Existem séculos de silenciamentos históricos que nos condicionaram, enquanto sujeitos negros, a leituras marginais.

E para tal movimento reflexivo precisamos pontuar que existe uma grande diferença quanto pautamos 'consciência humana' e quando pautamos 'consciência negra'.

A ideia de consciência humana, ligada a valores, práticas e experiências comuns a todos, advém de uma concepção teológica e filosófica do século XVII, e que ganhou vozes no período na Europa iluminista do século XIX. Sob tal ideal, o continente africano não era considerado parte da humanidade, não só por estar fora do continente europeu, mas também porque não comungavam das mesmas praticas religiosas. Assim, homens e mulheres africanos não compartilhavam a denominação 'seres humanos' com os europeus. E, por isso, poderiam ser escravizados, domesticados e coisificados.

Já a ideia "consciência negra" está intimamente ligada aos processos de reivindicações sociais e políticas das comunidades negras no Brasil. A partir de suas releituras, rememorarmos nossas resistências. Essas releituras precisam ser capazes de construir reflexões inclusivas, que possam evidenciar as ações, lutas negras na construção social brasileira e no combate ao racismo e a intolerância. Pois como bem sabemos, o nosso país foi forjado sobre o aparato colonizador europeu e fez do processo de invisibilização uma das suas maiores estratégia para a manutenção do trabalho escravo de homens e mulheres negros.

Assim, propor reflexões descolonizadoras sobre o tema 'consciência negra' é falar para além do mês de novembro, pois existimos e resistimos para além das datas rememorativas e comemorativas.

A consciência negra precisa ser exercitada e praticada todos os dias não só pelas comunidades negras, mas também por homens e mulheres não negros.

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