Luís Pimentel: Lá vem o novo ano...

Há quem espere o Natal fazendo contas (os comerciantes), se preparando para trabalhar pelo ano inteiro (a turma que faz bico como Papai Noel) ou bebendo para esquecer (o peru da ceia)

Por O Dia

Luís Pimentel, colunista do DIA
Luís Pimentel, colunista do DIA -

Rio - Tornou-se folclore no memorial da imprensa brasileira a história do redator que, sem inspiração para a manchete de uma edição de 25 de dezembro, tacou lá no alto da página, em letras maiúsculas e exclamação: QUANDO MENOS SE ESPERA, CHEGA O NATAL!

Acertou em cheio. Geralmente, quando pensamos que ainda estamos no meio do ano, lá vem ele, o bom e velho Natal e o tal do Ano Novo, provocando na gente aquela frase mais manjada do que a ideia do redator: "Puxa! Como este ano passou depressa..."

Há quem espere o Natal fazendo contas (os comerciantes), se preparando para trabalhar pelo ano inteiro (a turma que faz bico como Papai Noel) ou bebendo para esquecer (o peru da ceia).

O certo é que, quando menos se espera, a gente sente certo prazer em abraçar uma pessoa querida e dizer "Feliz Natal". E isso é o que conta.

Dia de folga

Todo dia 24 de dezembro o genro levava duas grandes bisnagas de pão de sal e uma garrafa de vinho adocicado. Na sacola de papel pardo estavam também uma peça de bacalhau, danado de ossudo, e umas castanhas que a mãe botava logo para cozinhar.

O menino ia até a venda do bairro comprar óleo, manteiga, ovos, canela e açúcar, e à noite os pães já tinham virado rabanadas. O bacalhau passava a noite dentro de uma bacia com água. Pela manhã era separado dos ossos e da pele. A mãe caprichava no ensopado com leite de coco, tomate, batata e coentro à vontade.

Aí sentavam-se à mesa - costume que não era do dia-a-dia. Os adultos bebiam vinho, os meninos bebiam K-suco, o bacalhau engolido com arroz fresco e farinha de mesa parecia a terceira coisa melhor do mundo; a segunda era a rabanada com café quentinho logo depois; e a primeira era que naquele dia a mãe não tinha que sair para o trabalho, mesmo que não fosse domingo.

A boneca

A menina queria porque queria a boneca que tinha cabelos de milho e revirava os olhinhos.

Diante da vitrine da loja, o pai contava os trocados. Um olho nos olhos ansiosos da filha, outro nos olhos sedutores da boneca.

O pai perguntou à vendedora se poderia parcelar. A moça respondeu que não.

O pai perguntou se a menina ficava triste. A filha não respondeu nada. Ele quis saber se poderia adiar para o final do mês. A vendedora disse que no fim do mês talvez a boneca já tivesse sido vendida.

O pai coçou os olhos de angústia, secou uma lágrima triste. A menina deu um abraço bem apertado no pai, sorriu com os olhos de amor e disse: "Não importa. Essa boneca nem é tão bonita assim".

Luís Pimentel é jornalista e escritor

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