O direito de nascer

Nos encontros dos escritos, milagres nascem

Por Gabriel Chalita, professor, jurista, escritor e político, advogado

opinião 30 dezembro 2018
opinião 30 dezembro 2018 -

O direito de nascer "Era esse o nome de uma novela antes de vocês nascerem. No tempo em que conheci a avó de vocês. A novela era boa, mas o que importa, agora, é o nome, apenas".

Orlando gostava das rodas de conversas com os seus netos e com os amigos de seus netos. "Prefiro conversar com criança", dizia ele saboreando a própria sabedoria. E as crianças gostavam da conversa.

Falava Orlando de um tempo que há muito havia passado. Explicava como se faziam as ligações telefônicas e a importância que tinha uma telefonista. E as máquinas em que se derretiam os sentimentos nos barulhos do datilografar. E o gerente de banco que era mais humano. E os anoiteceres na calçada com a conversa espantando o calor. "O novo ano está chegando e o que vamos fazer nascer?".

As crianças se entreolharam esperando quem falaria primeiro ou alguma nova explicação para a pergunta. "Vovô, está falando de bebê?"

"Estou falando do que nasce, e do direito de nascer, estou falando dos sonhos que sonhamos e que não desperdiçamos por aí. Estou falando dos que não aprenderam sequer a beleza do sonho. Quem sonha aqui?"

Rapidamente, as mãos se levantaram. E a conversa seguiu. Faltavam alguns instantes para o novo ano começar. A comida já alimentava os que tinham pressa. Os que bebiam para esquecer já se apresentavam. Mas o bom mesmo eram os ensinamentos do velho Orlando. "Já vivi muitos anos. Quando tinha a idade de vocês, aprendi que, no final de um ano, deveríamos fazer três pedidos. E escrever em um papel qualquer. E guardar em um livro sagrado. E aguardar que os pedidos se realizassem. Cresci um pouco e mudei os pedidos para propósitos. Três coisas que eu deveria fazer no nascituro ano. E assim se passaram muitos anos. E muito fiz, confesso a vocês. E, por fim, decidi escrever os meus sonhos. Quero que vocês façam o mesmo hoje. Esses pedaços de papel que vocês receberam é para isso".

"Vovô, é para escrever três pedidos, três propósitos ou três sonhos?"

"Vovô, qual a diferença?"

"É para mostrar depois?"

"Tem que ser para todo mundo ou só para mim"?

E cada criança ia fazendo a pergunta que quisesse. E Orlando observava com entusiasmo o desejo de aprender que toda criança tem. Quanto desperdício, pensava ele, quando educam erroneamente. Há uma inteligência em cada ser humano que tem o direito de nascer. Estão plenos de uma vida que quer brotar. Cuidar desse broto, é disso que se trata, é por isso que Orlando prefere as crianças.

"Vocês decidem. Mas eu proponho que escrevamos três sonhos para o mundo inteiro".

"Vovô eu gostei da parte do que a gente vai fazer".

"Então escreva, meu neto. O que importa é que as intenções sejam boas. Para o mundo ou para vocês mesmos, que fazem parte do mundo".

Os olhos ávidos daquelas crianças. o papel no colo, o movimentar das canetas, os pensamentos ainda próximos das límpidas nascentes. Era mais um ano que se despedia. Era mais um ano que nascia. Orlando olhava seus rebentos e uma dupla sensação o invadia. O temor pelo amanhã e a certeza de que algo bom vai acontecer. Papéis preenchidos, Orlando sugere que sejam guardados nos bolsos e que, depois, sejam entregues aos livros para que recebam aqueles pedidos ou propósitos ou sonhos. Nos encontros dos escritos, milagres nascem.

Os fogos já avisavam aos céus que um novo ano chegara. Os abraços, alguns sinceros, encontravam aconchego, e as crianças brincavam de felicidade na casa do velho Orlando.

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Gabriel Chalita, colunista do DIA Divulgação

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