Eugênio Cunha: Educação e equidade

Quando consideramos um aluno 'incapaz', não criamos muitas expectativas positivas. É um pensamento que culmina por enrijecer nossos planos, ideias e criatividade

Por O Dia

Eugênio Cunha, colunista do DIA
Eugênio Cunha, colunista do DIA -

Rio - Condições ideais de aprendizagem deveriam ser naturalmente garantidas a todos que estudam na escola. Porém, às vezes, são alcançadas somente por determinação legal. No final do ano passado, a Lei Estadual 8.192/18 determinou que escolas públicas e particulares assegurem aos estudantes com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), os recursos necessários que atendam às suas especificidades, tais como, flexibilização curricular, adequação das metodologias de ensino e dos materiais didáticos, além da formação do corpo docente.

Historicamente, nossa educação sempre ignorou os diferentes. Tempos atrás, seria ingenuidade pensar na oferta das mesmas condições de aprendizagem para crianças e adolescentes que não se encaixavam dentro do modelo idealizado de aluno. As mudanças que surgiram vieram em razão de Leis que buscavam defender os excluídos. Não deveria ser assim. Bom seria se independentemente da legislação educacional, os sistemas de ensino acolhessem a todos.

Aprendentes com TDAH têm muitas dificuldades para manter a atenção durante as aulas, distraem-se facilmente, necessitam de tempo maior para realizar exercícios e provas. Não dá para educá-los sem adaptações. Dizia o sociólogo Pierre Bourdieu que ao tratar todos os educandos, por mais desiguais que sejam eles, como iguais em direitos e deveres, o sistema escolar pode ser levado a dar sua sanção às desigualdades. Muitos estudantes com TDAH foram avaliados como desleixados, pouco inteligentes, inadequados, porque não foram estabelecidas estratégias pedagógicas essenciais para eles aprenderem.

Contudo, não podemos deixar que as ações decorrentes da Lei adquiram cunho compensatório, reforçando o nefasto conceito de que uns serão sempre menos capazes que outros e, por isso, precisarão ser mais ajudados.

Quando consideramos um aluno "incapaz", não criamos muitas expectativas positivas. É um pensamento que culmina por enrijecer nossos planos, ideias e criatividade. Como professores, devemos estar sempre avaliando e reavaliando nossa prática.

Percebemos que o exercício docente é também o exercício da autocrítica. Autocrítica que ensina aos mestres, que traz a compreensão de que cada educando tem um jeito peculiar de descobrir as coisas. Assim, acima dos nossos conceitos ou preconceitos, estará o desejo de educar com equidade.

Eugênio Cunha e professor e jornalista

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