Luís Pimentel: E não me invente de morrer!

Junto com a saúde do país - que agoniza diante da arrogância, do despreparo e da destinação de verbas para Pastas e patentes prioritárias - estamos morrendo aos poucos

Por O Dia

Rio - Tem cura, doutor? Não adianta espernear nem trocar o prontuário. Nos hospitais públicos, postos de saúde, emergência de atendimento ou em qualquer instalação onde o pobre seja instalado quase sempre para morrer, a pergunta que cala e dói – feito crepe na boca ou tratamento de canal sem anestesia – não é mais se existem possibilidade de cura. É: “Tem cama, doutor?” Cama, leito, maca, colchonete, esteira, jornal de ontem ou papelão para quem está se transformando em papel usado na fila da indigência são itens tão fundamentais quanto médicos e medicamentos.

Junto com a saúde do país – que agoniza diante da arrogância, do despreparo e da destinação de verbas para Pastas e patentes prioritárias – estamos morrendo aos poucos. Ainda bem que aos poucos. Não temos pressa. E não me invente de morrer, pois os custos com papa-defuntos (que não aceitam plano de saúde) estão proibitivos.

Descarga

Parece que burocratas da Saúde são indicados para fazerem na rede pública o que estão acostumados a fazer na privada.

Cena carioca 1.

No Hospital do Andaraí, onde segundo o Aldir Blanc, “tu entra cajá e sai caqui”: Depois de dois dias na fila, a paciente consegue falar com a recepcionista e recebe uma senha, para ser atendida daí a seis meses. “Seis meses?! Até lá eu já morri!!!”, esbraveja. E a recepcionista, bem prática: “neste caso, peça a alguém para telefonar desmarcando”.

Cena carioca 2.

Depois de castigar as varizes e sacudir os braços, sem sucesso, para meia dúzia de ônibus urbanos em Botafogo, a anciã balança uma nota entre os dedos, simulando que vai pagar a passagem, que não depende da gratuidade a que tem direito. Só assim consegue embarcar num deles, que a levará até as imediações do Hospital dos Servidores.

Antes de guardar o dinheiro e exibir a carteirinha de idoso, a paciente (põe paciência nisso) pergunta ao motorista: “O senhor tem mãe?”. O insensível gagueja que sim. Um brinde ao comentário final: “Então, peça a Deus para que ela não chegue a ficar velha!”.

Plantão

A medicina tem evoluído bastante, graças a Deus. Um dia ainda vai conseguir nos livrar dos médicos!

Luís Pimentel é jornalista

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