Gabriel Chalita: O tempo e os tempos

Por O Dia

Gabriel Chalita, colunista do DIA
Gabriel Chalita, colunista do DIA -

Chegamos ao hospital. Pessoas sentadas aguardando a vez. Pessoas saindo. Pessoas entrando.

Minha mãe olhava-me com confiança e apreensão. Quem gosta de ser submetido a uma cirurgia? Quem gosta de sentir dor?

Suas mãos perderam os movimentos que tantas vezes alimentaram minha vida. Chegava da escola e a encontrava na porta da entrada. Antes de entrar, o abraço cicatrizante com as mãos perfeitas. E a comida que as mãos preparavam. E o adormecer no colo descansador com as mãos dançando cantigas leves nos meus cabelos.

Era assim sempre. Naquele tempo.

O tempo, hoje, é outro. Os tempos de quem tem mais tempo de vida seguem outro movimento. As mãos ficaram cansadas. É preciso reanimá-las.

Entramos.

Os afetos têm poder. Médicos e enfermeiros, quando sabem disso, trazem sopros de alívio ao calor do medo.

Quando minha mãe entrou no centro cirúrgico, um aviso me avisou que somos limitados. Era preciso cultivar o tempo da espera e da confiança e da fé. Tempo demorado esse da notícia que não chega.

Chegou.

E logo depois chegou ela, a mulher que, por primeiro, me ensinou o significado do amor.

Dormia. Acordava. Dizia esperanças. Olhava. E, vagarosamente, me acariciava.

Os movimentos ainda não voltaram como gostaríamos. As dores ainda insistem em permanecer. Mas o sorriso é de quem não desiste.

Ontem, olhou para a fisioterapeuta com gratidão. O tempo da cura é caprichoso. É preciso esperar.

Às vezes, ela se alimenta sozinha; outras, alimento quem sempre me alimentou. Ela sorri. Do seu jeito. Ela reclama. Como sempre. Ela ama como quem compreendeu.

Andar, ainda não consegue. Vai conseguir. No tempo certo. O bom é que está comigo. Invertemos os papéis. No tempo de hoje, sou eu que experimento o cuidar.

Ouço histórias. Conto outras. Sua memória é soberana. Corrige alguns detalhes do que digo. Alimenta-me com preciosidades que posso ter esquecido.

Hoje, enquanto tomávamos café, ela falou sobre o tempo. Falou do meu pai que já se foi. Sorrimos de umas histórias engraçadas.De como se conheceram, do quanto eles eram apaixonados, dos desertos que tiveram de enfrentar. Perderam dois filhos. Dor insuportável essa. A cena ainda me visita. Na cidade pequena, os sinos choraram tristes. Os passos lentos levaram primeiro um, anos depois, o outro, seus dois filhos. O cemitério lá fica no alto. De lá se avista a cidade e o rio e a montanha que descansa do outro lado. Descansam eles onde chamam de paraíso. Cansaram meus pais de conversar com as lágrimas. Mas vieram os filhos do meu irmão. E a alegria explicou que a vida prossegue. E a felicidade persiste à dor.

Hoje, a saudade não corta, conforta. Mais um gole de café. E mais histórias. Sorridente, disse que teve medo quando se casaram. Meu pai teve que esperar alguns dias. Naquele tempo. o amor era paciente, era surpreendente.

Vez em quando, paramos no silêncio. E, depois, prosseguimos. E comemos mais. E ficamos alimentados.

Como não gostar desse tempo?

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