Luís Pimentel: no princípio, era o verbo 'carnavalizar'

Onde há fé há também esperança - no repique, no tamborim, na cuíca, no tambor e no rebolado daquela passista

Por O Dia

Rio - No princípio era o Verbo. No livro da Bíblia, o Verbo estava com Deus, e “o Verbo era Deus.” Pelos deuses do Carnaval, no princípio era também a alegria, porque todo poder durante esses dias emana do povo; especialmente o poder da criação. Se no Gênesis “a luz resplandece nas trevas”, aqui resplandece no Sambódromo e nas principais ruas e avenidas por onde os blocos cariocas (os melhores do mundo) passam, iluminando a nossa esperança de que, pelo menos durante esses dias, homens, mulheres e meninos possam ser felizes.

Muito embora se trate apenas da felicidade efêmera. Mas onde há fé há também esperança – no repique, no tamborim, na cuíca, no tambor e no rebolado daquela passista a nos provar que a criação divina também pode ser feita de carne e osso; melhor quando mais carne do que osso.

No princípio era o Verbo e o Verbo era de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Cartola, Carlos Cachaça, Babaú da Mangueira, Sabiá e Anescarzinho do Salgueiro, Guará, Beto Sem Braço, Zé Katimba, Dona Ivone Lara, Ismael Silva, Noca da Portela, Monarco, Nelson Sargento, Martinho e Luiz Carlos da Vila... E quem puxava o verbo era Jamelão, Quinho, Gera, Dominguinhos do Estácio, Neguinho da Beija-Flor... Todos de olho no altar onde pontificavam Xangô da Mangueira, Mestres André e Louro... cito esses porque hoje não sei muito bem como é que a banda toca.

Mas sei que muita gente boa, seja pura ou impura, derramou vales de lágrimas na Avenida, acompanhando a escola do coração em passos e compassos que diziam “Minha romântica senhora tentação/Não deixe que eu venha sucumbir nesse vendaval de paixão”, ou “Neste cenário de real valor/Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou”, ou ainda “Nossa sede é a nossa sede de que o Apartheid se destrua”...

Se nas palavras do criador, “a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”, podemos reafirmar que nesse santo terreiro que vai da sexta-feira até no mínimo a outra, a lei no princípio (como manda o verbo) foi dada por Fernando Pamplona, Joãozinho Trinta, Arlindo Rodrigues, Maria Augusta, Max Lopes, Milton Cunha, Rosa Magalhães, Paulo Barros...

Porque no princípio era o Verbo e toda verba é pecadora (especialmente aquelas que definem o Carnaval de encomenda), peço, nesses tempos de censura, medo, violência e ameaças, que não vejam blasfêmia nessas palavras, não me crucifique que nem ao CristoMendigoJoãozinhoBeijaFlor (há 30 anos!), pois essa verborragia não passa de brincadeira. Carnavalizemo-nos, pois. E evoé, querido Momo!

Luís Pimentel é jornalista

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