Rachel Baccarini: Vulnerabilidade e HIV

Um projeto focado na população mais exposta à infecção em uma cidade africana: trabalhadores do sexo e homens que fazem sexo com homens.

Por O Dia

opinião 1 março 2019
opinião 1 março 2019 -

Cheguei ao projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF) para HIV na cidade moçambicana da Beira no início de julho de 2018 e os seis meses que por lá fiquei passaram muito rápido. É uma cidade à beira-mar, com 400 mil habitantes. O projeto é bem grande, focado na população mais vulnerável à infecção, chamada de população-chave: trabalhadores do sexo e homens que fazem sexo com homens. As atividades acontecem em um Centro de Saúde e no Hospital Central, principalmente para prevenção, planejamento familiar, testes de HIV e hepatite B, saúde sexual e reprodutiva, distribuição de preservativos, diagnóstico e tratamento de HIV avançado. O objetivo principal é diminuir o número de pessoas infectadas e a mortalidade.

No hospital, a maioria dos pacientes chega em estado muito grave, desnutridos, com infecções graves relacionadas ao HIV, como tuberculose. Lá, MSF oferece ajuda médica, exames e tratamento. No Centro, é realizado o atendimento para o HIV, saúde sexual e reprodutiva.

Em paralelo, uma equipe com mais de 30 pessoas faz visitas domiciliares às pessoas atendidas. Na minha primeira semana, os acompanhei e me deparei de imediato com a realidade de Moçambique. Mesmo sendo brasileira e acostumada a trabalhar como médica em locais muito pobres, como as periferias de grandes cidades, a pobreza aqui se estende para a maioria da população. Junto com a pobreza, a violência é parte da realidade diária, principalmente de mulheres e crianças.

Parte da equipe distribuía preservativos. Acompanhei um grupo por dez minutos, sob sol escaldante, que entrou por vielas, becos enlameados, muito esburacados. Entramos em uma das casas que se resumia a uma sala de mais ou menos 6 m². Uma mulher grávida de uns 6 meses, com um bebê no colo, nos recebeu, enquanto três crianças de 2 a 5 anos brincavam do lado de fora, em montes de lixo e poças de água esverdeada e malcheirosa.

Conversamos com aquela mulher magra e de rosto inexpressivo chamada Anika. Oferecemos testes, planejamento familiar, vacina de hepatite B. Eu vi o resultado do último exame e a encaminhei para o centro de saúde. Anika foi abusada pelo pai e maltratada pela mãe aos 8 anos. Aos 14, engravidou do amigo de infância e saiu de casa com a barriga de 6 meses porque não conseguiu abortar, por mais ervas que tenha tomado e por mais objetos que tenha introduzido no corpo. Morou na casa de uma tia até a criança nascer. Prostituiu-se aos 15 anos, logo depois do parto feito em casa. Engravidou mais quatro vezes de homens dos quais nem sabia o nome e ali estava ela, aos 25 anos, grávida, HIV positiva, com tuberculose, convivendo com a fome, a doença e a violência: trabalhadora do sexo em Beira.

Saímos da casa de Anika e continuamos pelos becos cheios de lixo e de crianças até encontrarmos a próxima casa de mais uma trabalhadora do sexo. Minha cabeça doía e meu estômago se revoltava diante das cenas e das histórias que se repetiam naquela manhã.

Essa era a rotina daquele grupo de trabalho. Muitas mulheres da nossa equipe, corajosas e incansáveis, tinham histórias semelhantes. Perto delas, eu era só mais uma estrangeira cheia de arrogância e expectativas. Mas também muito orgulhosa por fazer parte de um projeto como esse e por poder conhecer esse povo sofrido, resistente, amigável e colorido que é o povo de Moçambique.

 

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