Gabriel Chalita: Uma manhã de Carnaval

Eu e as histórias que me fazem companhia.

Por O Dia

OPINA3MAR
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As louças estão desconfiadas. Muito limpas. Muito organizadas. Em outros tempos, era tanta gente! Alcides já se foi. Como gostava de carnaval! Era o ano inteiro esperando os dias de folia. Não era de bebida, como muita gente por aqui. Era de alegria. Gostava das canções, do dançar, das histórias que a escola escolhia para contar na avenida. Gostava de gente. De casa cheia.

Ele entrava cantando o meu nome. Meu nome é Maria. Cada dia, ele entoava uma canção diferente com o nome de Maria. Vivemos juntos por quase 50 anos. Faltava pouco, quando os céus resolveram que a canção deveria ser lá. Foi um lindo enterro. Claro que chorei muito, claro que discuti com o sono que não vinha. A cama ficou grande demais. E a saudade, também. Os filhos têm os seus filhos. São atenciosos, mas precisam cuidar do plantio. Amigos, eu tenho aos montes. Mas o que ele queria era uma despedida com cantoria. E foi assim que foi.

Hoje, amanheci sozinha. Eu e as histórias que me fazem companhia. Eles vêm para o almoço. Ontem, foram para a avenida. Devem estar dormindo. Queriam que eu fosse, não fui. Fiquei por aqui mesmo. Rezei um pouco. Chorei. Escarafunchei tanta coisa em mim. Está tudo em mim. O que se foi continua em mim.

Eu gostava de ir ao carnaval com ele. Gostava do seu olhar apaixonado para minha dança. Era para ele que eu fazia. Era para ele que eu distribuía desejos; discretos, mas desejos. E ele sabia. E, quando voltávamos para casa, nos amávamos até o tempo do descanso. E descansávamos juntos prosseguindo no amor. Quando as crianças eram crianças, acordavam-nos querendo brincar. Brincávamos sem preguiças. E era bom.

Nas manhãs de carnaval de antigamente, dividíamo-nos preparando as fantasias. Eram os filhos, os amigos dos filhos, os que chegavam. Quem chegava encontrava sorriso e gostava de permanecer. Eles foram crescendo. Os namoros eram tímidos, nos inícios. Depois, foram brincar nos seus terrenos. E vieram os casamentos, e as presenças misturavam-se às ausências. Compreensível. Assim foi quando deixei a casa dos meus pais e finquei raízes com Alcides.

Não sou da nostalgia. Sou da memória. Se choro, choro por um sentimento bom, por uma gratidão de ter conhecido quem conheci, de ter gerado quem gerei, de ter amado. E de ter recebido amor. Sem amor, somos o quê? Pedaços ínfimos em um universo tão gigante? O amor nos faz gigantes. Somos vistos ao longe. Experimentamos a sensação única de que alguém nos espera.

Ele me esperava. Eu o esperava.

Bem, hora de lavar o arroz, de tirar a sujeira do feijão, de preparar o alimento bom. Daqui a pouco, a casa estará cheia. Não gosto que falte nada. Quero olhar para as crianças e desejar que encontrem quem eu encontrei. "A vida é a arte do encontro", disse um poeta de que Alcides gostava.

É assim que me encontro nesta manhã de carnaval, disposta a viver com o tempo brincalhão que dança, dança, dança sem nunca se cansar.

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