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Marcela Barreira: Como proteger as crianças dos perigos do mundo virtual

Será possível manter as crianças inseridas no mundo tecnológico sem trazer prejuízos a a saúde e para o desenvolvimento?

Por O Dia

Marcela Barreira
Marcela Barreira -

São Paulo - Não é de hoje que especialistas em desenvolvimento infantil vem alertando sobre os perigos da exposição excessiva aos dispositivos eletrônicos. E nesta última semana, com os vídeos da boneca MoMo circulando nas redes sociais, este assunto voltou a ser muito comentado.

Será possível manter as crianças inseridas no mundo tecnológico sem trazer prejuízos a a saúde e para o desenvolvimento?

De acordo com as pesquisas e evidências científicas atuais, a exposição exagerada às telas de celulares, tablets e computadores e o uso excessivo da visão de perto, trazem problemas para a saúde de crianças e adolescentes.

Em relação às alterações oculares, sabemos que o uso da visão de perto, em detrimento da exposição à luz natural e do uso da visão de longe, pode causar ou ainda piorar a miopia. O aumento deste erro refrativo no mundo tem sido considerado pela comunidade médica uma epidemia mundial.

Mas não é só a miopia que nos preocupa. Estamos observando um aumento importante nos quadros de olho seco, irritação e cansaço ocular em pessoas que ficam expostas por mais de uma hora a telas de tablets, celulares ou computadores. Sintomas estes antes ausentes em crianças e adolescentes, que agora estão se tornando corriqueiros nos consultórios de oftalmopediatras.

Outro ponto que se soma a estes citados é o aumento dos distúrbios do sono na população infantil. Alguns estudos recentes apontaram que o excesso de exposição à luz azul (espectro da luz visível de cumprimento de onda curto e de alta energia) pode levar a danos na retina, gerar distúrbios do sono e irritabilidade.

Isso porque a luz azul tem participação no nosso ciclo sono - vigília por interferir na nossa produção de melatonina, principal substância envolvida na indução do sono. Sendo assim, crianças que usam tablets e celulares à noite podem ter uma piora na qualidade do sono, levando a um menor rendimento escolar, por exemplo.

E como se não bastasse todas as alterações oftalmológicas, temos ainda estudos demonstrando que esta excessiva interação com as telas tem gerado problemas no desenvolvimento global da criança, tanto na parte motora quanto cognitiva. Um estudo recente demonstrou sinais de atrofia cerebral em adolescentes, além de sinais de maturação cerebral precoce.

E os prejuízos não param por aí! Outras pesquisas apontam que o uso excessivo da tecnologia acarreta na diminuição do raciocínio lógico, da coordenação motora e das habilidades de interação social. Poderíamos ficar horas falando sobre estes malefícios, devidamente comprovados pela ciência.

O fato é que a tecnologia faz parte do mundo moderno, sendo inclusive recurso acadêmico em muitas escolas. Assim, não há como privar as crianças e a adolescentes de usar os dispositivos eletrônicos. O que podemos fazer então?

É mandatório que os pais controlem de forma rigorosa o uso recreativo, principalmente em casa, de celulares, tablets, computadores e outros dispositivos. Inclusive, de acordo com as Sociedade Brasileiras de Pediatria e de Oftalmopediatria, crianças menores de dois anos não devem ter nenhum contato com tais tecnologias. Para as maiores de dois anos, a recomendação é que o uso não ultrapasse uma hora por dia.

Sobre a televisão, preocupação de muitos pais, a dica é escolher o que a criança irá assistir. Lembrando que a TV exige o uso da visão de longe, sendo uma opção menos maléfica para o desenvolvimento visual.

Outra dica é que se a criança usa o computador para estudar, o ideal é colocar o dispositivo perto de uma janela. Isto irá ajudar a criança a intercalar a visão de perto com a visão de longe durante as atividades. Esta troca relaxa a acomodação visual e diminui os sintomas de cansaço ocular.

Somado a isto, o ideal é fazer intervalos periódicos quando é preciso ficar mais tempo em frente ao computador, dica que também vale para adultos que trabalham o dia todo nestes dispositivos.

Por fim, é fundamental estipular um horário noturno, que não deve passar das 18h00, para o uso dos dispositivos, já que a luz azul interfere no ciclo do sono e na produção da melatonina. Outro ponto é deixar as luzes acesas para proteger a visão dos raios emitidos e dar preferência para a luz natural.

Como uma última dica para os pais, quando tiramos algo da criança é sempre importante colocar outra atividade no lugar. Reduzir o tempo de exposição aos eletrônicos é mandatório, assim como aumentar as atividades ao ar livre e incentivar a prática de esportes e outras atividades fora das telas, como aulas de circo, futebol, dança, entre outras.

Marcela Barreira é oftalmopediatra especialista em Estrabismo - Neuroftalmologista.

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