Marcio Luis FernandesDivulgação
Por O Dia

Rio - Os registros de Guaratiba remontam a 1579, ano de inauguração da sesmaria do mesmo nome. Seus domínios atuais coincidem com os limites estabelecidos por meio do decreto 3158 de 1881 – documento que instituiu a R. A. de Guaratiba – sendo esta composta por três bairros oficiais (Guaratiba, Barra de Guaratiba e Pedra de Guaratiba).

Além dos três bairros citados acima, no interior de Guaratiba (o mais extenso bairro da cidade), há um outro bairro eleito por seus moradores, o qual a prefeitura não reconhece como tal, cujos limites são fluidos e existencialmente demarcados: Ilha de Guaratiba.

Neste diapasão, podemos dizer que os domínios de Guaratiba não dizem respeito apenas aos limites impostos por decretos. Na verdade, no transcurso de sua história e geografia, guaratibanos de longa tradição têm forjado por meio de sua intensa relação com o lugar uma geografia memorável, baseada em domínios de bem-querência.

Sendo assim, podemos dizer que há bem querência dos pescadores de Pedra de Guaratiba em sua relação diária com a baia de Guaratiba/Sepetiba. Neste contexto, artefatos centenários como o mercado do peixe e a sede da colônia de pescadores são alçados à condição de lugar ou lar, uma vez que são vivenciados por trabalhadores que deles dependem em sua lida cotidiana.

Há, igualmente, bem querência dos moradores tradicionais de Ilha de Guaratiba em seu trato com a terra. A grande produção agrícola de outrora fez de Guaratiba uma das mais prósperas freguesias do Rio antigo nos séculos XVIII e XIX. A aptidão agrícola do lugar prevaleceu até a década de 1980, quando a produção de alimentos começou a decair. O fim desta atividade, no entanto, não freou o ímpeto dos tradicionais agricultores que, sob influência de Roberto Burle Marx, substituíram as roças de outrora pelos hortos hodiernos. Assim, por meio do amor dos guaratibanos à terra, Ilha de Guaratiba migrou da agricultura tradicional para a atividade paisagística, tornando-se um dos jardins do Rio.

Guaratiba, assim como outros points da cidade, extrapola seus limites por meio de uma geografia pulsante trançada por seus moradores, tendo um alcance extraordinário, sobretudo quando se lembra que atrai indivíduos de diferentes lugares. Este afluxo de pessoas é provisório (atrelado às visitas a monumentos, ao sítio Roberto Burle Marx, aos restaurantes, aos hortos...) e permanente, ligado à migração de população residente de outros perímetros para os domínios de Guaratiba, o último lugar da fronteira da urbe carioca.

No ano em que completa seu 440º aniversário (05/03), Guaratiba segue sua marcha urbanizadora, sem - no entanto - perder seus encantos.

Marcio Luis Fernandes é doutor em Geografia pela UERJ. 

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