Eugênio Cunha - Divulgação
Eugênio CunhaDivulgação
Por O Dia
Rio - Quase não fazemos mais rascunhos. Antigamente, para alguém escrever uma carta, por exemplo, era comum rascunhar uma primeira vez para depois transcrever para o papel sem erros. Era costume fazer tudo antes para um resultado correto, perfeito. Assim, antes do computador, era necessário datilografar sem erros. Hoje, graças as novas tecnologias, é possível errar. É assim que fazem os nativos digitais que frequentam a escola contemporânea: aprendem no mundo digital por ensaio e erro. Essa possibilidade tem mudado a relação deles com o conhecimento. De certa forma, é muito mais confortável e até desejável em alguns momentos chegar aos acertos errando.

Algumas questões surgem daí: Por que pessoas mais velhas do mundo analógico têm grandes dificuldades para aprenderem o uso das novas tecnologias digitais? Por que crianças e adolescentes aprendem e ensinam tão facilmente? A resposta está no medo e no lúdico. A maioria das pessoas do mundo analógico aprendeu nos bancos escolares debaixo do aguilhão do medo de errar, quando o erro era motivo para admoestação em sala de aula. Lembro-me do temor que eu tinha de não dar a resposta certa e ser corrigido pela professora. Ficava calado o tempo todo. Não era permitido errar naquela época. Por isso, aprender o novo tornou-se uma dificuldade para mim e para muitos que passaram pela mesma situação. Gerações de aprendentes levaram essas impressões para a vida social e profissional.

No entanto, crianças começam a manusear as tecnologias brincando, nos joguinhos eletrônicos, na interatividade do touch screen. Não há medo no lúdico. Aprendem mais rápido. O primeiro contato que a minha geração teve com as novas tecnologias digitais foi motivado pelo trabalho. Há medo no trabalho, por isso aprendemos mais devagar. Isso é um sinal para nós, educadores, quando buscamos refletir a respeito de formas de ensino: o medo emburra, o desejo elucida.

O conhecimento nasce também do erro. O erro demanda sempre um reconhecimento para um recomeço. Demanda ao mesmo tempo uma análise dos fatos e uma investigação não punitiva, mas reparatória. Quem aprende a conviver com os erros desenvolve a autocrítica e a autoestima. Descobre os atributos da convivência e da tolerância, essenciais nos dias de hoje. Na vida ou na escola, é preciso aprender com os erros para sermos melhores.  
Eugênio Cunha é professor e jornalista