Gustavo Ribeiro: Lições do caso The Intercept

Nem mesmo o melhor roteirista de seriado de TV poderia escrever um novo desfecho tão impressionante após tudo isso: as recentes revelações feitas pelo site "The Intercept Brasil" na série "As mensagens secretas da Lava-Jato"

Por O Dia

Gustavo Ribeiro
Gustavo Ribeiro -
Rio - Vivemos um longo processo de perda constante de credibilidade nas instituições. Escândalos de corrupção dominam o noticiário há muitos anos, corroendo um dos princípios básicos da democracia que é a confiança dos cidadãos no Estado.

De repente, uma série de políticos e empresários poderosos vão para a cadeia, o que nunca havia passado antes na história desse país. Isso se deu graças a ação de procuradores, juízes e policiais federais na denominada operação Lava-Jato.

Nem mesmo o melhor roteirista de seriado de TV poderia escrever um novo desfecho tão impressionante após tudo isso: as recentes revelações feitas pelo site "The Intercept Brasil" na série “As mensagens secretas da Lava-Jato”. Estas reportagens ancoradas em dados vazados colocam em xeque a ética e a legalidade da atuação dos personagens centrais desta operação, tidos por muitos como heróis.

Os mais velhos dizem que antigamente não havia corrupção e desvios éticos como hoje. Isso é apenas uma questão de percepção, pois o fato em si é falso e sequer tem comprovação. Ocorre que hoje há muito mais fiscalização e transparência dos poderosos que antigamente. Uma grande mudança que não nos damos conta. E isso se dá tanto legalmente como com ações ilegais de hackers.

Até mesmo uma das principais agências de interceptação de dados do mundo, a agência de segurança nacional, a NSA, já foi vítima de um brutal vazamento de dados causada pelo ex-analista Edward Snowden, o qual repassou os dados ao mesmo grupo ("The Intercept") que agora divulga os dados vazados de autoridades brasileiras.

O Departamento de Estado norte-americano também foi vítima, assim como a campanha da então candidata favorita na última eleição presidencial dos EUA, Hillary Clinton. Todos estes episódios comprovam que ninguém está à salvo de ter seus dados vazados, nem mesmo as pessoas ou instituições mais poderosas do mundo.

E os repórteres do site já anunciaram que este vazamento no Brasil tem muito mais dados que o caso da NSA, e que o conteúdo publicado até agora é quase nada perto do que ainda está porvir. Enquanto isso, nós espectadores permanecemos atônitos com a dúvida se estamos assistindo a uma série de TV ou um noticiário real.

Esse é apenas o começo de um processo longo e duro, que produzirá um desgaste inédito na reputação das nossas instituições, aumentando a descrença da sociedade no poder público, ao revelar em detalhes os bastidores da operação lava jato. O cenário é tão dramático, que até mesmo a Justiça, o último Poder em que o cidadão contava como suporte após a falha dos demais poderes, já sofre um duro golpe.

No entanto, também é possível encarar esse desgaste como uma dor necessária para aprimoramos as nossas instituições e o nosso sistema de justiça criminal, independente do nível de gravidade que for constatado ao final destas publicações. Casos emblemáticos como esse devem servir para gerar mudanças estruturais, muitas vezes difíceis de serem implementadas em circunstâncias normais.
Gustavo Ribeiro é formado em Ciências Sociais
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