Maio/2017.A psicanalista Renata Bento no seu consultório na Barra da Tijuca..Foto: Selmy Yassuda - Divulgação
Maio/2017.A psicanalista Renata Bento no seu consultório na Barra da Tijuca..Foto: Selmy YassudaDivulgação
Por O Dia
Rio - Escutar o adolescente é algo peculiar que necessita de um conhecimento acerca do que representa essa fase da adolescência. Observa-se com frequência em processos judiciais, genitores e até mesmo magistrados “levando ao pé da letra” as palavras do adolescente, sem levar em consideração através de uma investigação mais profunda, o enredo, os aspectos familiares, a personalidade e a decodificação da mensagem dita.

É comum observar que deixam à cargo de jovens a decisão, por exemplo, de com quem irá residir quando há discussão a respeito da guarda, principalmente se o jovem é articulado e transmite algo que pode ser interpretado como amadurecimento. É um erro não verificar o porquê e de onde parte esse desejo, uma vez que se deve observar como funciona emocionalmente esse adolescente, em que situação se encontra seu duplo referencial, pai e mãe e como esses pais lidam com suas funções parentais. Nota-se que esse tipo de demanda direcionada ao jovem ocorre, mais facilmente, quando há decadência das funções parentais ou aliança do adolescente com um dos genitores.

O processo da adolescência pode ser visto como uma travessia de uma ponte com inúmeros obstáculos e desafios. Durante esse percurso, muitos incidentes podem ocorrer; cabe aos pais ou cuidadores a supervisão e a contenção dos impulsos destrutivos bem como a troca afetiva e a intimidade não confundidas com invasão; isso tem a ver com a aproximação e o cuidado. É durante essa travessia que a adolescência (aspectos emocionais) junto com a puberdade (aspectos biológicos) promovem uma série de mudanças no jovem.

A adolescência como fase instável necessita que seu ambiente representado pela família seja estável. Essa estabilidade e segurança do ambiente servirão de anteparo para os aspectos mais agressivos e impulsivos.

A aparência potente do adolescente serve para encobrir sua fragilidade, bastante natural cercada de medos e ansiedades comuns de um processo de identidade em fase de amadurecimento.

Na experiência clínica em consultório e/ou no estudo pericial no judiciário, observa-se que as disputas por guarda neste período tendem a ser muito complicadas.

O adolescente como bom hedonista deseja liberdade, busca fazer suas predileções baseadas no imediatismo do aqui e agora. E por isso tenderá a apontar sua escolha parental onde entende que terá maior controle sobre o genitor(a) e benefícios, nem sempre sendo o melhor para eles. Por outro lado os pais acreditam na força do adolescente, como se adultos fossem. E quando acreditam cegamente, deixam de observar que essa fase de transição é delicada e precisa de muita supervisão.

É possível que, ao libera-los desse lugar, esses adolescentes se sintam aliviados por terem sido vistos como meninos ou meninas carentes e desamparados escondidos em suas pseudo-maturidades utilizadas como defesa, necessitados da orientação e da contenção de seus pais e não o contrário. É preciso ter um olhar bem mais amplo do que somente aquilo que se mostra aos olhos desavisados.

Cabe ao magistrado, quando se depara com essa demanda, encaminhar para estudo psicológico e não deixar depositado no adolescente uma decisão da qual ele não pode sustentar emocionalmente, fazendo-se valer apenas da vontade consciente; é preciso investigar de onde partiu o real desejo.
Renata Bento é psicóloga e especialista em criança, adulto, adolescente e família