Verônica Szuster: O amargo preço da desigualdade de gênero

Num mundo ainda permeado por bolsões de miséria e desigualdades, é estarrecedor saber que a equidade entre mulheres e homens, incluindo salários e funções de liderança nas empresas, acrescentaria 12 trilhões de dólares ao PIB globa

Por O Dia

Verônica Szuster
Verônica Szuster -
Rio - Num mundo ainda permeado por bolsões de miséria e desigualdades, é estarrecedor saber que a equidade entre mulheres e homens, incluindo salários e funções de liderança nas empresas, acrescentaria 12 trilhões de dólares ao PIB global. Ou seja, o simples fim de uma atitude discriminatória permitiria agregar à nossa civilização riquezas equivalentes à economia da China, a segunda maior da Terra. No Brasil, o crescimento seria de 30%.

Os dados, constantes de uma pesquisa da McKinsey, não devem servir apenas de alerta, mas, sobretudo, como estímulo à mobilização em prol da igualdade de gênero, que deve ser permanente e resiliente. Há muito o que fazer nesse sentido, embora importantes conquistas já tenham sido obtidas.

Em nosso país, por exemplo, apenas uma a cada quatro empresas tem participação feminina em cargos de liderança, segundo estudo apresentado pelo Grupo Talenses, em parceria com o Insper. O padrão não é muito diferente do internacional: o índice global é de 29% das empresas, segundo a pesquisa Women in Business 2019. Tudo, porém, é uma questão de mudança cultural, como demonstra a mesma pesquisa: as empresas que assumem um compromisso formal com o empoderamento das mulheres e a igualdade de gênero apresentam probabilidade duas vezes maior de ter participação feminina em cargos de liderança. Precisamos, portanto, enraizar tal esforço nas corporações brasileiras.

Afinal, como se vê, a atuação das mulheres no mercado de trabalho ainda representa uma barreira a ser vencida. O público feminino ainda sofre bastante com o preconceito. De todo modo, estamos avançando lentamente na igualdade de gênero, em especial a partir da segunda metade do século passado e das duas primeiras décadas do atual.

A grave dimensão das desigualdades exige a permanente mobilização. São muitas as dificuldades, partindo da persistente carga extra de trabalho e responsabilidades inerentes ao chamado cargo de dona de casa. A sensação é que os progressos são muito lentos, mas devem ser comemorados e colocados como parâmetros para a continuidade da luta em favor da igualdade de gênero.

Relatório da ONU Mulheres, apresentado em setembro último, mostrou que pouco mais da metade da população feminina com idades entre 25 e 54 anos é economicamente ativa, contra 96% dos homens da mesma faixa etária. Uma das principais causas, afirma a entidade, é que as mulheres continuam a realizar trabalho doméstico triplo como mãe, esposa e dona de casa.

O empoderamento da mulher na sociedade e no trabalho não se restringe à prevalência da justiça e da igualdade de deveres e direitos entre todos os cidadãos. Trata-se, também, de um avanço cultural que definirá o futuro da humanidade, pois as desigualdades, preconceito, discriminação e intolerância contra a mulher e todas as minorias são fontes de conflitos e pobreza, inclusive de espírito.
Verônica Szuster é mestre em Serviço Social e sócia-diretora da MedLevensohn

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