Gabriel Chalita: Domingo de Páscoa

Saudade da minha infância. Do interior, onde tudo era mais próximo. Do sino da Igreja, nos avisando que o dia havia acordado. Das procissões da semana santa

Por Gabriel Chalita*

Gabriel Chalita, colunista do DIA
Gabriel Chalita, colunista do DIA -
As crianças estão acesas. Deixaram para depois as preocupações. Crianças também têm o direito de se preocupar. Ontem mesmo, Sávio clamou por atenção. Explicou que não podia colorir o céu sem o lápis azul. Parei tudo e visitei com ele as possibilidades. Pintamos alguma tristeza e o cinza resolveu. Mostrou, satisfeito, para Marina, sua irmã, a obra de arte. A pequena tem, no irmão, o condutor de certezas. Admira-o. E isso é bom. Foram cedo para cama para mudarem, rapidamente, de dia e viverem a Páscoa.

Mirela e eu escondemos alguns ovos em pontos diferentes da casa. Minha esposa cultiva o propósito de deixar a vida mais leve. E colhemos alegrias. Nos esconderijos, embalamos os ovos com frases de amor. Marina ainda não conhece as palavras. É Sávio quem lê para a irmã. E o faz com a autoridade dos seus quase seis anos de vida.

Um passado me acorda. Saudade da minha infância. Do interior, onde tudo era mais próximo. Do sino da Igreja, nos avisando que o dia havia acordado. Das procissões da semana santa. Dos nomes dos que caminhavam. Do velho padre que nos contava histórias. Do sermão da morte de Jesus. Minha mãe, invariavelmente, enfeitava os seus sentimentos com algumas lágrimas.

Hoje, estamos trancados. Há muitos e não há ninguém. Sou dos que gostam do brincar antigo. Da contação de histórias. Da montagem dos quebra-cabeças, do adivinhar palavras.

Demorei a me casar. Demorei a enfrentar a minha solidão e a perceber que amar é uma proibição de estar só. Mas sinto falta dos dias que se foram. Sinto falta das outras faces que emolduravam os porta-retratos vivos da minha infância. Muitos já partiram. É assim o viver. Um despedir. Um receber.

Mirela é muito mais jovem do que eu. Com ela, decidi pedir ao tempo que fosse lento. Quero ver os meus filhos em outros tamanhos. Quero sucumbir nos cansaços das brincadeiras e sorrir nos gestos de seriedade. Quero, enfim, viver.

Páscoa é a festa da vida. E, por isso, os ovos. É preciso encontrar o verdadeiro sentido da vida. E, por isso, os escondemos dos pequenos. É nos pequenos ensinamentos que vamos forjando os amanhãs. As escrituras começam nos inícios. Nos inícios, onde se urge aprender o correto. A Páscoa é a festa da liberdade. Era assim que os antigos comemoravam. Uma passagem de uma situação à outra. E o mar entre eles.

Nenhum mar nos engole, se soubermos para onde ir. Nenhuma escravidão pode nos vencer, se estivermos fortes.

Sávio me surpreendeu, indignado, com o que fizeram a Jesus. Tão criança e tão pleno. Rezo para que prossiga no propósito de não naturalizar as crueldades. E Jesus perdoou as ignorâncias. Mesmo com a dor dos pregos injustos que o mantinham na cruz. E, os cruéis, a história apenas registra alguns dos seus nomes. E Jesus mudou a história, porque não se fez um deles. Não odiou. Não vingou. Não usou o poder para mostrar o poder. Sua vida, ressurgida da morte, eternizou o seu ensinamento. O amor é a força mais poderosa do universo. E o amar é o que nos faz andar com pés decididos.

Marina me perguntou sobre o coelho da Páscoa, se Jesus tinha um coelho. Expliquei como pude. Perguntei se ela gostava de coelhos. E pintei a explicação com a sua resposta. São lindos, cheios de vida. Queria que meu pai pudesse ter conhecido os seus netos. Não. Não estou nostálgico. É apenas uma saudade querendo participar da festa do hoje.

Quando encontrarem os ovos, meus filhos vão ler os sonhos que ousamos sonhar por eles. Nada de intromissões. Que decidam eles os próprios caminhos. Mas que aprendam que amor, humildade, respeito, honestidade, compaixão são segredos que os coelhinhos pintaram nos ovos que vão adoçar nosso futuro.

Não poucas vezes, em meio a dores prolongadas, ouvi do meu pai, "o futuro existe".
Fiquei pensando no céu cinzento que meu filho e eu pintamos. E decidi que vou providenciar o azul. Combina mais. Termino com esta doce melodia que me faz lembrar por que gosto tanto de viver, "Feliz Páscoa, papai".
*Gabriel Chalita é professor e escritor 

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