Eugênio Cunha: O que esperar das escolas após a quarentena?

O acolhimento dos alunos no retorno às aulas será um fator decisivo, que poderá significar, em muitos casos, o esmaecer da esperança ou o reconstruo do sonho

Por Eugênio Cunha*

Eugênio Cunha
Eugênio Cunha -
De fato, nada será como antes. Segundo estimativas, cerca de 1 bilhão e meio de estudantes em todo o mundo foram afastados da escola. Jamais será suficiente qualquer esforço que vise uma educação a distância com qualidade, pois o papel da escola vai além do ensino e da aprendizagem. Permeia as relações de convivência, as expressões afetivas, os momentos de trocas sociais.

Um relatório divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE - prevê uma série de mudanças nos espaços escolares após a pandemia, tais como: distanciamento social, reforço do ensino, aulas on-line e novos hábitos de higiene.

Não será diferente no Brasil. As escolas necessitarão formar alunos, professores e funcionários para essa nova cultura no ambiente educacional. Sem dúvidas, o uso das tecnologias digitais revelará mais claramente as desigualdades sociais. No campo da aprendizagem, ficará mais notória a distância entre o pobre e o rico. Aqueles que não têm acesso à internet de boa qualidade poderão ser excluídos. É preciso que o poder público dê o suporte necessário às famílias mais vulneráveis, em colaboração com as instituições de ensino, para a superação das barreiras que poderão alijar jovens e crianças de suas atividades acadêmicas e das condições elementares do exercício da sua cidadania.

Durante um bom tempo ainda estaremos colhendo reflexos da pandemia. As escolas terão que fazer investimentos no campo pedagógico, porque muitos alunos apresentarão déficit no desenvolvimento. Precisarão estabelecer ações que evitem a evasão, assegurando o acesso a todos, fazendo acompanhamento escolar, engajando as famílias e realizando frequentemente avaliações diagnósticas e formativas.

Além disso, há de ser observados aspectos afetivos em decorrências de fatores emocionais que poderão surgir. Haverá necessidade de investimentos em higienização, limpeza e tudo o que for necessário para monitoramento e controle de novos focos do Covid-19. Os governos, cujos cuidados com a educação sempre foram tímidos, terão um enorme desafio pela frente. Haverá necessidade de investimentos também nas instituições privadas, que devem estreitar seus laços com as famílias. Estas precisarão formar com as escolas uma parceria mais forte para suplantar todos os percalços financeiros e sociais trazidos pelo período de isolamento.

O acolhimento dos alunos no retorno às aulas será um fator decisivo, que poderá significar, em muitos casos, o esmaecer da esperança ou o reconstruo do sonho. Qual a melhor maneira de atender às necessidades do aprendente? Cada situação deverá ser tratada de acordo com suas especificidades. E quanto ao professor, um dos heróis solitários deste tempo de pandemia? Ele deverá ser também acolhido, muito bem acolhido.
*Eugênio Cunha é doutor em Educação, professor do Ensino Superior e da Educação Básica

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