Gabriel Chalita: O balançar do mundo

Gosto de estar aqui. Nesse parque. Nesse balanço velho e eterno. Nesse mundo com suas alturas e funduras. Nesse corpo de mulher preparado para gerar vida sem fim

Por Gabriel Chalita*

Gabriel Chalita, colunista do DIA
Gabriel Chalita, colunista do DIA -
Gosto de estar aqui. O balanço me preenche de ontem e de amanhã. E isso é bom. Hoje, nem a brisa que acompanha o meu movimento acalma o mundo.

Sou de uma família de mulheres. Três irmãs criadas por uma mãe viúva. Balançamos muito na vida. Ora víamos de cima as plantações de tudo, ora era por baixo de tristes cobertas que nos púnhamos a espantar a frieza dos dias. Sorrisos e pausas. Esperanças e medo. E os dias foram irrigando nossos pés. E, assim, crescemos.

Ouço gritos enlouquecidos contra uma criança que infância não teve. Roubaram a inocência de seu corpo sem tempo. Um tio, outro tio, um avô. Sei pouco do tanto que a atormentou covardemente. Homens bichos. Podres de alma. Não sou julgadora. Não sou nem serei igual a eles. Não sou promulgadora de vinganças ou ódios. Sou uma mulher em um balanço.

Tinha cabelos longos, quando era inocente. E gostava de ficar sentada aqui ventando vida no mundo. Não faz tanto tempo. Cresci crescida. Verguei os que se puseram contra meu movimento. Valentia sempre tive. Violência, nunca.

Minha mãe sofreu duas vezes. Por um marido que fez morrer as suas crenças em um amor verdadeiro e pelo mesmo marido que morreu de doença sem cura. Foi feliz só depois, quando nos viu desabrochando sem medo. Foi curando a dor com as colheitas de seu plantio.

Sou um pouco minha mãe. Hoje mesmo, ela me disse isso, enquanto eu me punha a discorrer sobre minhas discordâncias dessa gente que domina a verdade. E sempre gritando.

Gosto do balançar. Do movimento do meu corpo, sentada nesse antigo banco. Das minhas mãos atadas a cordas devidamente pensadas para segurar sem espantar a liberdade. Sinto a liberdade em cada movimento que decido. Ai dos que imaginam decidir por mim! Faço o contrário! Por precaução, inclusive. Obediência só à bondade. Que me venham com delicadeza e me convençam. Ou então que se contentem com o meu desobedecer consciente.

Namoro um homem que bebe da mesma água do respeito em que, desde cedo, aprendi a saborear. Quando minhas irmãs e eu nos púnhamos a duvidar dos dizeres do meu pai, minha mãe nos silenciava com sua decisão de não sujar a semente que nos fez viver. Era ela quem comandava a sua vida. Era ela quem nos inspirava a comandar a nossa. Nos deu ela limites, sem nos pesar ferros. Somos livres para o balanço do que nos faz bem ou mal, do que nos acalma ou nos causa horror.

Tenho horror ao indecente discurso da mentira. Sonho em ser mãe, em educar meus filhos na alegria. Virei aqui com eles, certamente. Empurrarei no começo e, depois, assistirei satisfeita ao balançar de cada um. Que decidam eles os próprios movimentos. Ensinarei com afinco a bondade, o restante se ajeita.

O mundo está estranho. Sei disso. Mas não quero o desânimo. É um ciclo. Vivemos tempos de colheitas generosas e tempos de aridez de sentimentos. As alternâncias existem. Não sei quem decidiu, mas é assim.
Minha mãe trata meu namorado como filho. Gosto disso. Tenho em casa o que desejo ao mundo. Liberdade com responsabilidade. Verdade com respeito. Amor com amor.

Gosto de estar aqui. Nesse parque. Nesse balanço velho e eterno. Nesse mundo com suas alturas e funduras. Nesse corpo de mulher preparado para gerar vida sem fim.
*Gabriel Chalita é professor e escritor

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