Luís Pimentel - Divulgação
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Por Luís Pimentel*
O prestígio do Brasil no mundo e a autoestima do brasileiro andam tão em baixa, que qualquer mimo
que nos façam é bem recebido. Foi o que aconteceu outro dia, quando o papa Francisco citou o verso “A
vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, do nosso Vinicius de Moraes. Foi
pinçado na letra do “Samba da bênção”. Já ali, ele lembra também que “Viver não é brinquedo, não”, nos
fazendo rever outro brasileiro de boa cepa, que também foi diplomata (que nem o Poetinha), Guimarães
Rosa.

“Poetinha” era um tratamento carinhoso. Quem quer que conheça ao menos um pedaço da obra de
Vinicius de Moraes reconhece o “poetaço” que ele foi, nos livros ou nas canções. Neste momento em que
vivemos desencontros tão perigosos com a democracia, a saúde, a credibilidade política e o respeito entre
os brasileiros, um encontro ou reencontro com sua arte se faz fundamental (que nem “a beleza”, como ele
preconizava).

O poeta, cronista, dramaturgo, compositor, crítico de cinema, advogado, diplomata, boêmio e cidadão do mundo Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro (num mês de outubro, dia 19, em 1913), mesma cidade onde morreu em 1980. Consta que era um menino muito bonito. Tinha olhos verdes, “talvez ausentes, mas determinados como se vissem logo adiante um grande dever a cumprir e o tempo fosse pouco”, como declarou certa feita sua irmã mais velha, Laetitia. E bonito o poeta foi a vida inteira, de corpo e alma, o que justifica o inacreditável sucesso que fez com as mulheres, que o
levou a inúmeros casamentos.

Vinicius foi também dramaturgo de relativo prestígio. A peça As feras, de sua autoria, foi um agito em
temporada baiana na década de 1970. Mas o primeiro grande estouro de sua produção teatral foi Orfeu da
Conceição, que estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1956, antes de virar filme em
produção internacional. Entre outras felicidades, Orfeu ofereceu a Vinicius de Moraes a oportunidade de
conhecer aquele que veio a ser o seu parceiro mais constante e ao lado de quem realizou os momentos
mais marcantes de sua obra: Tom Jobim. Em meio à efervescência política dos anos 60, conheceu o
revolucionário Carlos Lyra, compositor de violão refinado e ideias definidas, talhadas no trabalho de
conscientização popular. Fértil e produtivo, a usina de letras que era Vinicius de Moraes esbarrou ainda,
nessa época, com o virtuose do violão Baden Powell, compositor de mãos-cheias, deslanchando uma nova
fornada de grandes sucessos da MPB.

A mais profícua, duradoura e popular parceria do múltiplo Vinicius foi travada com Toquinho, músico
bem mais jovem do que o poeta e que começou no início dos anos 70 uma promissora carreira de
melodista e arranjador. Foi Chico Buarque quem, ainda durante o exílio na Itália, convenceu Vinicius da
necessidade de conhecer o trabalho de Toquinho tão logo chegasse ao Brasil.

Lembrar e relembrar Vinicius de Moraes, hoje e sempre, é quase um dever, estético e patriótico. O
papa não é brasileiro, mas tem bom gosto.
*Luís Pimentel é jornalista e escritor