Aristóteles Drummond, colunista do DIA - Divulgação
Aristóteles Drummond, colunista do DIADivulgação
Por Aristóteles Drummond*
Nessa pandemia, acabo de reler o Idos de Março, narrativa de alguns dos mais importantes jornalistas da época da Revolução, abordando a crise que desembocou no movimento nascido em Minas e que logo teve o apoio de todos os estados e das Forças Armadas. Nem uma voz, fora do Congresso, para a defesa de Goulart.
Na ocasião, foram todos unânimes em apresentar a situação como que insustentável pelo radicalismo, a ousadia comunista, o envolvimento do então presidente da República, que se deixou levar por radicais, que o colocaram longe da realidade. Não ouviu as advertências de aliados de bom senso.
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Estão ali, nos textos de Armando Nogueira, Carlos Castelo Branco, Alberto Dines, Pedro Gomes e outros, o retrato do Brasil naquelas semanas que antecederam o grito vindo de Minas pela voz autorizada de seu governador, Magalhães Pinto, e as armas do comandante da guarnição federal ali sediada, general Olímpio Mourão Filho.
O gesto de coragem acabou acompanhado pela maioria dos demais governadores e chefes militares, numa operação coesa, resolvida em menos de 72 horas, com a retirada do presidente para o
Uruguai, de aliados refugiados em embaixadas e outros tantos presos.
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A narrativa mostra a reação empresarial, tendo como centro a Associação Comercial do Rio, entidade de maior repercussão na época como a voz do empresariado. O interessante de todos os depoimentos é o fato de o presidente ter sido advertido por leais e corretos companheiros dos perigos de conciliar com revoltosos, acobertar indisciplina militar, desapropriar terras e ameaçar uma reforma urbana radical, confiscando na prática a poupança de uma classe média habituada a investirem em imóveis para complemento de aposentadorias ou para garantir a família em caso da falta de seu chefe.
A Igreja Católica foi decisiva para unir a família brasileira na defesa da ordem, da disciplina e da paz social. Mas Goulart preferiu ouvir e se iludir com incentivos de vozes divorciadas do pensamento da igreja e dos católicos, almoçando, e sendo estimulado semanas antes do 31 de março, com os Arcebispos Carlos Vasconcelos Mota e Helder Câmara. Deveria ter ouvido o Arcebispo de Porto Alegre, D. Vicente Scherer, o de
Diamantina, D. Sigaud, ou o cardeal do Rio, D. Jaime de Barros Câmara. Foi um equivocado total, perdendo a Presidência e o futuro aos 46 anos de idade.
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Como os políticos ganhariam tendo paciência de estudarem a História, os fatos relevantes da política do mundo e das nações. Goulart chegou a achar que os atos que assinou no fatídico comício de 13 de março,
cercado de radicais, como o então presidente da UNE, José Serra, o fariam entrar para a História como reformador, igualando a data à Abolição da Escravatura, à assinatura por Vargas das Leis Trabalhistas e da criação da Petrobras e seu monopólio.
Não percebeu que aqueles acontecimentos atendiam ao povo e ao interesse nacional. O que fez, em termos de encampação e desapropriações, só prejudicaria a Economia e a credibilidade do Brasil. E agravaram a crise social. Recordar é aprender!
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Embora a literatura sobre 1964 seja pouco plural, este momento histórico que vivemos precisa ser conhecido e o livro dos insuspeitos jornalistas, nenhum em principio favorável ao movimento, mas escreveram encima dos acontecimentos e como repórteres políticos e não como militantes.
*É jornalista