Por bianca.lobianco

Rio - Eloisa Samy, advogada da jovem de 16 anos vítima de estupro coletivo, pediu ontem o afastamento do delegado Alessandro Thiers, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, da condução do caso. Eloisa critica o fato de nenhuma prisão de suspeito ter sido solicitada e diz que o interrogatório foi presidido de forma “inadequada”, com a presença de mais dois homens. Ela pede que uma delegada fique à frente da investigação.

A advogada se reuniu com representantes do Ministério Público do Rio, o procurador de Justiça Márcio Mothé, e a coordenadora de Violência Doméstica contra a Mulher, Lúcia Iloízio, que consideram grave a ausência da delegada da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV) na tomada do depoimento da vítima. O MP também tomará conhecimento do inquérito e, possivelmente, entrará com ação penal.

“Não há imparcialidade (do delegado), que está culpabilizando a vítima. Ele perguntou se ela já tinha participado de sexo em grupo”, disse a advogada, que acrescentou: “Além do delegado, havia mais dois homens na sala durante o interrogatório, que deveria ter sido conduzido por uma mulher”.

Polícia identifica local onde jovem foi vítima de estupro coletivoDivulgação

O delegado rebateu as críticas e afirmou que está sendo “isento”. “Ela (Eloisa) está querendo bagunçar a investigação. Pode dizer o que quiser, mas tudo está sendo investigado com rigor e imparcialidade”, afirmou.

Apesar de ponderar que ainda não tem conhecimento das investigações, a promotora Lúcia Ilízio considera o fato envolvendo a jovem “chocante”. “Claro que nos choca e, nesse aspecto, o MP é solidário à vítima e familiares”, disse ela, apontando irregularidade na ausência da delegada da DCAV. “É uma aberração. E a jovem deveria ter sido ouvida no Centro de Atendimento ao Adolescente e à Criança, no Souza Aguiar, criado para este tipo de situação. Não na delegacia por três homens”, completa Mothé.

Eloisa também pediu assistência da OAB para que a entidade entre com representação contra Thiers na Corregedoria da Polícia Civil. A OAB informou que vai designar representante para acompanhar a investigação.

Em nota, a Polícia Civil informou que a investigação é conduzida de forma técnica e imparcial, integrada pelas delegacias especializadas — DRCI e Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV) — para reunir provas e identificar os culpados.

A advogada da vítima criticou o fato de nenhum dos suspeitos identificados terem sido presos até agora. “Só de terem divulgado o vídeo na rede já deveria ser o suficiente para prendê-los”, justificou.

Segundo o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, as prisões não foram pedidas, porque faltam detalhes jurídicos. Já o chefe de Polícia, Fernando Veloso, disse que há indícios de que houve estupro, mas que precisa concluir as investigações. As imagens da casa onde a adolescente foi estuprada foram divulgadas ontem.

Pela manhã, a PM fez operação com 70 agentes no Morro do São José Operário, na Praça Seca, onde ocorreu o crime no último fim de semana, em busca de suspeitos. Foram apreendidos 2.179 trouxinhas de maconha e 1.482 papelotes de cocaína. Um homem foi detido, mas, segundo a polícia, ele não tem envolvimento no caso. Em Copacabana, manifestantes estenderam 33 peças de roupas sujas de “sangue”, representando os possíveis 33 suspeitos do crime.

Velhos conhecidos

A polêmica em torno da advogada Eloisa Samy e do delegado titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, Alessandro Thiers, continua. Esta não é a primeira vez que os dois se cruzam em um caso. A advogada esteve entre as 23 pessoas denunciadas à Justiça e que chegaram a ter a prisão decreta em 2014 sob a acusação de planejar e participar de protestos violentos no Rio durante a Copa do Mundo.

Thiers foi o responsável pelo inquérito que acusava o grupo de formação de quadrilha e chegou a pedir a prisão de Samy. A advogada chegou a ser considerada foragida.

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