Crise no IML aumenta sofrimento de família

Corpo de Carlos Eduardo Nogueira está em unidade da Baixada desde sexta-feira, quando deu entrada como indigente

Por O Dia

Rio - Em meio à crise do estado que chegou ao Instituto Médico Legal (IML), a família de Carlos Eduardo Nogueira da Silva, de 20 anos, que morreu baleado no Morro do Querosene, no Rio Comprido, Zona Norte, não sabia até este sábado à tarde onde estava o corpo do jovem. A reportagem apurou e confirmou que, até a tarde deste sábado, ele estava na unidade de Nova Iguaçu após ter dado entrada como indigente na sexta-feira, dia do óbito. A unidade do Centro deixou de receber cadáveres semana passada por falta do serviço de necropsia. 

Os parentes disseram que não foram informados sobre o destino do corpo do rapaz, atingido na cabeça por uma bala perdida durante confronto entre policiais e traficantes na comunidade do Fallet, próxima do Querosene. No entanto, de acordo com a Polícia Civil, a perícia já foi realizada e estava aguardando apresentação de documento original pela família para confirmação da identidade da vítima.  

A unidade do IML de Nova Iguaçu tem capacidade para receber dez corpos. Contudo, a crise do instituto faz com que mais de 20 corpos cheguem ao local diariamente, e funcionários reclamam da falta de estrutura para o trabalho. Corpos amontoados foram vistos pela reportagem. "É uma lixeira humana", classificou um deles. Neste sábado, no município da Baixada Fluminense, o clima era de indignação diante de tamanha negligência. Outras famílias reclamavam da demora excessiva do reconhecimento dos corpos e do processo como um todo.  

Corpo de Carlos Eduardo está no IML de Nova Iguaçu desde sexta-feira%2C quando deu entrada como indigenteErnesto Carriço / Agência O Dia

"Fico indignada não com as pessoas que foram escolhidas para trabalhar, até porque parecem ser simpáticas e gostariam de atender. Elas até tentam passar uma palavra de conforto", comentou a dona de casa Maria Duarte, de 40 anos, irmã de um homem morto em acidente de trabalho na Rocinha. Maria foi enfática, porém, ao criticar a situação do IML. "Você não tem nem o direito de morrer. A pessoa fica abandonada e jogada como se fosse uma banana que se come e se joga a casca na lixeira", lamentou. 

A comerciante Beatriz Duarte, de 30 anos, sobrinha da mesma vítima, criticou o abandono do estado e o descaso no tratamento aos mortos e aos familiares. "Além de perder um ente querido, é humilhante você passar por uma coisa dessas. Cheiro insuportável, vendo pessoas tristes. Humilhação é a palavra. São dois sofrimentos: o da morte e o do abandono do estado", desabafou.  

A Polícia Civil informou que está articulando, junto às empresas responsáveis pelo serviço de limpeza, para que sejam feitos os pagamentos pendentes. Quitando os salários atrasados dos funcionários, a instituição pretende regularizar o serviço de limpeza nas unidades, o que, dizem, possibilitaria a retomada dos trabalhos de necropsia no IML do Centro.  

Reportagem dos estagiários Rafael Nascimento e Caio Sartori

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