Índice de PMs mortos em assaltos é 125 vezes superior aos demais cidadãos

De janeiro a abril, 18 agentes da PM morreram em assaltos. No mesmo período, outras 55 pessoas foram vítimas deste crime

Por O Dia

Rio - Cinco policiais militares foram baleados, entre a noite de terça e a manhã desta quarta-feira. Dois deles, morreram em assaltos. Os assassinatos corroboram para a alarmante taxa de mortalidade de policiais militares por latrocínio. Nos primeiros quatro meses desse ano, o índice foi 125 superior em relação às mortes do mesmo tipo de crime do restante da população do Estado do Rio.

O cálculo foi feito pela reportagem do O DIA que teve acesso aos casos tratados como latrocínios de PMs no período pela Divisão de Homicídios. De janeiro a abril, 18 agentes da PM morreram em assaltos. No mesmo período, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), outras 55 pessoas foram vítimas do mesmo crime.

Assim, comparando-se a quantidade de casos de mortes de PMs com o tamanho da tropa (47.827) e com a população do estado (cerca de 16,5 milhões de pessoas), respectivamente, a taxa de mortes dos policiais militares foi de 37,6 por 100 mil agentes, enquanto o restante da população teve um índice de 0,3 mortes em assaltos para cada 100 mil habitantes. Ou seja, no período, a taxa de morte de policiais em assaltos foi 125 vezes superior.

Mais de 200 policiais participaram do cortejo do tenente Márcio. Avós do oficial estavam inconsoláveisMárcio Mercante / Agência O Dia

Os dados confirmam as estatísticas divulgadas pelo ISP no relatório intitulado vitimização policial. No estudo, os pesquisadores apontaram que os policiais, tanto civis e militares, tiveram 6.000% mais chances de morrer em assaltos, entre janeiro e novembro de 2015 do que o restante da população fluminense.
Para chegar ao percentual, os técnicos do ISP também compararam a quantidade de casos com o tamanho das tropas e com a população, por grupo de 100 mil.

Política para os agentes

Segundo o vice-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da FGV, Renato Lima, a reação e o uso de armas na folga podem explicar a taxa de mortalidade dos policiais. “Esse é o resultado da cultura organizacional de que o policial tem que reagir. E um policial ao ser identificado corre grande risco de ser morto. Mas as evidências mostram que a reação não é a melhor opção. É um dilema. É necessária uma política voltada para os agentes.”

Neste ano, 47 PMs foram mortos. Entre os baleados em 12 horas de terça para quarta estão um policial reformado em Caxias; um policial da UPP Mandela;e um subtenente, em Belford Roxo. Já um sargento do GAM e um tenente do Choque morreram.

Homenagem com motocicletas e sirenes no enterro

Morto com sete tiros em um assalto em Vila Isabel, na noite de terça-feira, o tenente do Batalhão de Choque Márcio Ávila Rocha, de 30 anos, foi sepultado ontem à tarde, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. Mais de 200 policiais, amigos de Márcio, o homenagearam ligando motocicletas e sirenes. Bandidos atacaram o oficial e roubaram a moto em que estava e sua arma.

Familiares e amigos do militar, que dava um curso para novos agentes atuarem em motocicletas durantes os jogos olímpicos, teriam pedido para que ele deixasse a corporação por causa da violência no Rio.

“A gente sempre falava para ele sair da PM. Mas o Márcio dizia: ‘Isso aqui é minha vida’. Quando ele colocava a farda, a roupa se transformava em pele.”, afirmou o tio da vítima, Jorge Alexandre Ávila, 60 anos.

Avó materna de Márcio, Vilma Ávila, segurou, durante todo o velório, o capacete do Choque que era usado pelo neto. Ela se desesperou ao se despedir. “Os covardes mataram meu menino. Márcio, olha por sua avó, me espera que em breve eu e seu avô vamos estar juntos de você num lugar especial”, disse, muito emocionada. “Punição tem que ser mais rigorosa nos casos de morte de policiais desta forma”, destacou Víctor Yunes, chefe de gabinete do Comando Geral.

Grupo de policiais quer protestar na Olimpíada

A falta de pagamento e a morte de policiais militares estão mobilizando oficiais da reserva da PM e do Corpo de Bombeiros. Um dos canais mais usados pelos militares é o WhatsApp, além de outras redes sociais.

Integrante de oito grupos com 250 PMs, o subtenente Ricardo Garcia da PM aposta em um grande movimento para pressionar o governo a colocar os salários em dia e cobrar da Secretaria de Segurança Pública a redução da criminalidade. “Tem que melar a Olimpíada. O José Mariano Beltrame ainda é secretário de Segurança”, ironizou Garcia, referindo-se ao secretário de Segurança.

Oficiais dos Bombeiros reivindicam os salários atrasados. Um dos mais inflamados no WhatsApp é o coronel reformado Arauto Lima, que invadiu o Palácio Guanabara em 1980, no governo Chagas Freitas, para defender os direitos dos militares.

As assessorias de imprensa dos Bombeiros e da PM informaram que há punição para os reformados em caso de transgressão disciplinar.

?Colaborou Adriana Cruz

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