Por tabata.uchoa

Rio - Oficialmente, hoje é o último dia do mais longevo secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. Em quase dez anos, ele conseguiu diminuir o número de homicídios, e teve liberdade na pasta que mais recebeu dinheiro no governo estadual. No entanto, seu sucessor, Roberto Sá, assume a função com dívida de quase R$ 1 bilhão, unidades policiais sucateadas e índices criminais crescentes.

A imagem do corpo de um jovem caindo em um precipício durante ação da polícia no Morro do Pavão-Pavãozinho, na segunda-feira, é símbolo do momento de seu principal projeto: o declínio das UPPs. Especialistas listam alguns pontos que podem explicar seus erros.

‘O que me sobra%2C não dá nem para pagar elevadores’%2C alegou%2C há 10 mesesDaniel Castelo Branco / Agência O Dia (25.6.2016)


PM DIVIDIDA
Ao idealizar o projeto de Unidades de Polícia Pacificadora, Beltrame disse que seria necessário reformular a ideia de policiamento e, para isso, somente recrutas e oficiais novos iriam trabalhar nas áreas pacificadas. “Ele acreditou que mudaria a polícia mudando uma parte dela, deixando a outra de lado. Chegou a dizer que os policiais antigos estavam contaminados”, afirmou a socióloga Silvia Ramos.

A ação fez com que fossem priorizados treinamentos para os agentes das comunidades, enquanto os batalhões continuavam sucateados. Além disso, policiais mais experientes se sentiram desprezados e desmotivados. “Ele desprezou a experiência dos mais antigos, jogou os jovens no inferno sem um guia”, postou em rede social o major PM Elituzalem Freitas.

ORÇAMENTO
A Segurança foi a pasta que mais recebeu recursos dos governos estadual e federal, com aumentos sucessivos, que chegaram a 40% entre 2007 e 2014. Em 2015, por exemplo, recebeu quase R$ 9 bilhões, enquanto a de Educação, em contrapartida, três vezes menos. Mesmo assim, Beltrame afirmou, durante reunião em dezembro passado com deputados estaduais: “O que me sobra não dá nem para pagar elevadores.”

DINHEIRO NO LIXO
Não faltou dinheiro para arriscar com programas e compras de equipamentos que viraram “elefantes brancos”. É o caso do Sistema de Detecção de Tiros, implantado em 2012, na Tijuca, ao custo de R$ 3 milhões, e das cabinas blindadas nas vias especiais, ambos desativados. Em 2009, a pasta investiu cerca de R$ 6 milhões na compra de 1.331 carabinas. Meses depois, elas foram devolvidas à Taurus, empresa que as produziu. O motivo: as munições emperravam e não eram disparadas. Quatro anos depois, um novo lote de carabinas foi entregue pela Taurus. Os balões com câmeras, doados pelo Ministério da Justiça, também não voam mais: é necessário o gasto de R$ 40 mil em combustível para cada voo.

Fernando Veloso, que pediu para sair da Chefia de Polícia, afirmou que há falta de dinheiro para manter as delegacias funcionando. “Com exceção da Divisão de Homicídio, falta papel, falta combustível para viaturas. Difícil investigar assim”, disse.

PROCESSO
O secretário Beltrame ainda responde por um processo de improbidade administrativa por contrato na manutenção das viaturas.

UPPs EM LATAS
Além da migração de traficantes que fortaleceram o tráfico na Baixada e em regiões até então pacatas no interior do estado, como Angra dos Reis e Cabo Frio, os policiais de unidades atuais ainda atuam em contêineres e barricadas. “Não temos nem banheiro ou ar condicionado. O colete está vencido”, afirmou um agente para a reportagem. “A polícia de proximidade não pode retroceder, mas falta recursos”, opinou o sociológo Ignácio Canno.

ÍNDICES CRIMINAIS
Policiais acabaram reproduzindo práticas antigas e a meta de redução de homicídios para menos de 20 por 100 mil habitantes ficou longe de ser alcançada. O número de desaparecidos em 2015 aumentou em 26%. 

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