Por gabriela.mattos

Rio - O “não voto”, que soma brancos, nulos e abstenções, foi o protagonista do segundo turno no Rio, com 41,53%. Mas, além da latente crise de representação de que tanto se fala, especialistas observam outro saldo dos números expressivos: o da demanda pelo voto facultativo. 

Na visão do cientista político Paulo Baía, da UFRJ, a população pede a mudança de modo mais amplo do que parece. “O eleitor quer o voto facultativo. Não apenas pelos três índices (brancos, nulos e abstenções), mas também pelos que deram um voto desconfortável em um dos candidatos”, diz.

Índice recorde de brancos%2C nulos e abstenções traz à tona debate sobre a obrigação de ir às urnasArte O Dia

Baía vê o voto facultativo como uma solução interessante, uma vez que a maioria das democracias modernas funciona assim. “Vai exigir dos partidos apresentar um cardápio de nomes que os torne mais interessantes e competitivos”, defende. No entanto, ele alerta para uma provável consequência da desobrigação eleitoral. “Não se assuste se o índice de abstenção alcançar os 65%”.

Devido ao alto número de abstenções, há quem veja no Brasil uma espécie de voto “quase facultativo”. A ideia é impulsionada pela facilidade com que o eleitor pode justificar a ausência, com multa de R$ 3,51. Baía refuta. “O voto obrigatório ainda pressiona muito o eleitor. Principalmente para quem ocupa cargos públicos, o que no Rio tem um peso razoável”. Quem não está em dia com a Justiça eleitoral sofre uma série de restrições ligadas ao funcionalismo público.

Para o professor da FGV-Rio Ivar Hartmann, o voto facultativo é a melhor opção. No Brasil, diz, está em voga o pior tipo de voto obrigatório, classificado por ele como ‘enganação’. “A maneira de se proteger do coronelismo é garantindo a anonimidade do voto, não obrigando a votar”, aponta.

Índice recorde de brancos%2C nulos e abstenções traz à tona debate sobre a obrigação de ir às urnasArte O Dia

Ano passado, ao votar a reforma política, a Câmara dos Deputados manteve o voto obrigatório, sob a alegação de que a democracia brasileira ainda não é ‘madura’ o suficiente. “A reforma foi feita por pessoas diretamente interessadas no jogo político. É claro que fariam as regras com os próprios interesses”, contrapõe Hartmann.

“A partir do momento em que o voto fosse facultativo, a taxa de abstenção aumentaria e mostraria ainda mais a baixa qualidade dos quadros políticos”, completa.

?Reportagem do estagiário Caio Sartori

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