Por adriano.araujo

Rio - Ainda incrédulo com a prisão do filho por extorsão, o aposentado Antônio Luiz Coelho não queria acreditar no relato dos repórteres presentes na delegacia de que seu filho forjou o sequestro da sua neta. “Estão falando isso, mas a polícia levou ele lá de casa para reconhecer os sequestradores. Não me deixam falar com ele”, disse, ao chegar à delegacia.

Ao ser informado que seu filho teria confessado o crime, respondeu, com a voz embargada. “Ele é bom. Deve ter algum erro”, opinou. Emocionado, perguntou a um inspetor se o filho estava detido pelo dinheiro levantado para o resgate. “Consegui o dinheiro em duas horas com amigos. O dinheiro é meu, posso chamar as pessoas aqui para falar”, afirmou.

Pai de Éder não quis acreditar que o filho forjou o sequestro da sua netaDivulgação

Eder chegou na delegacia escondendo o rosto. Indagado pela reportagem sobre o sequestro, se limitou a dizer: “Me deixa”. Sua irmã, Isabel Cristina Vitorino, tentou agredí-lo. “Por que você fez isso com nosso pai? Ele não merece”, gritava. 

Felicidade com liberdade e surpresa com prisão

Às 13h desta quinta-feira quando o metalúrgico desempregado Eder Vitorino Coelho, 33 anos, entrou na casa de sua avó em Santa Cruz, Zona Oeste, com Sara Beatriz Vitorino, de 1 ano e seis meses, foi abraçado por toda a família. A menina tinha sido supostamente sequestrada e eles pensavam que o pagamento do resgate da pequena havia sido bem-sucedido. No entanto, a felicidade de tios e avós pelo regresso de Sara foi substituído, em seguida, pelo espanto ao ver Eder sair algemado da residência por policiais que faziam vigília na rua há 12 horas. Ele, que deveria proteger a bebê, foi o seu sequestrador. Acabou preso por extorsão.

Eder chegou à delegacia com o rosto coberto pela camisa. Para pagar resgate pedido por ele, seu pai pediu dinheiro a vizinhos e amigosLuiz Ackermann / Agência O Dia

“Foi o pai da criança quem forjou o sequestro. Ele a deixou na casa de uma amiga durante a madrugada. Queremos saber se ela sabia do golpe”, disse o delegado Thiago Martins, da 36ªDP (Santa Cruz), que solucionou o caso. O objetivo de Eder era extorquir R$ 7,5 mil do próprio pai, o aposentado Antônio Luiz Coelho, 72 anos. Para isso, contou uma história considerada fantasiosa pela polícia.

Carta apresentada por Eder Vitorino Coelho no falso sequestro da filha de 1 ano e 6 meses e o dinheiro do 'resgate'Divulgação/ Polícia Civil

Segundo depoimento, Eder disse que estava passeando quarta-feira, ao meio-dia, com a filha, na Estrada Vitor Dumas, onde moram os avós paternos da criança em Santa Cruz, quando um carro parou ao seu lado e ocupantes mandaram ele entrar. Depois de 1h, voltou para casa dizendo que Sara havia sido raptada e, caso o pagamento não fosse feito, ela seria sacrificada em ritual satânico.

Todos foram registrar o caso na delegacia. A mãe, que é separada do pai da criança, também foi para o local. “Em algumas horas de depoimento vi que ele entrava em contradição. Cheguei a confrontá-lo. Disse: ‘o senhor está mentindo’. Ele não esboçou reação”, afirmou o delegado. Ele determinou que uma viatura descaracterizada vigiasse Eder.

De manhã, uma pista do sequestro surgiu misteriosamente. Eder disse ter encontrado um bilhete dos sequestradores no portão de casa. Com palavras fortes como “a criança seria sacrificada”, a mensagem pedia dinheiro pelo resgate e fazia observações: a polícia não poderia ser avisada e somente Éder poderia ir no encontro de entrega da quantia.

O pai de Eder pediu dinheiro aos vizinhos e amigos para entregar ao filho, que disse ter ido fazer o resgate.

Menina de 1 ano e 6 meses%2C nos braços da família%2C após resgate Reprodução Facebook

Preso já tinha feito outra falsa comunicação de crime

O delegado Thiago Martins disse que suspeita que Éder já tenha feito outra falsa comunicação de crime, em fevereiro de 2014.

Na ocasião, ele contou que voltava para casa em Santa Cruz, quando a van que estava com outros passageiros foi abordada por cerca de dez traficantes.

“Ele contou que os traficantes levaram os passageiros, de madrugada, para carregar caixas de mercadoria roubada dentro da Favela do Rola. Isso teria durado algumas horas”, contou.

O caso fez o delegado suspeitar de Éder. “Infelizmente, casos de falsa comunicação de crimes não são raros e normalmente tem um pouco de fantasia. Nesse caso de agora, achei até que fosse algo relacionado à guarda da criança. Me surpreendeu a extorsão do próprio pai”, explicou o delegado Thiago Martins.

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