Por tabata.uchoa

Rio - Claudio Cruz, de 59 anos, é a personificação máxima de uma certa ideia de ‘carioquismo’. Nascido em Madureira, apaixonado por samba e cachaceiro assumido, é fundador da Raça Rubro-Negra, portelense de raiz e dono do bar Vaca Atolada, na Lapa. Pelo décimo sexto ano consecutivo, ele organizou a Ceia Alcoólica de Natal do Vaca, regada a bebidas, sais de fruta e remédios contra enjoo. “É uma forma de preparar o organismo do folião para as festas de fim de ano e para o Carnaval”, explica o Noel da cachaça. 

Criador do bloco Embaixadores da Folia, que desfila desde 2000 pelas ruas do Centro, Claudio pensou na ceia como um momento de reunir os amigos de samba no fim de ano. “Sempre dei cerveja aos músicos. Era o lanche alcoólico. Aí, decidi fazer a ceia. É a preocupação dos Embaixadores com os colaboradores e amigos”, explica. Na noite da ceia, também é servida a caipirinha de folha de boldo. Aliás, a árvore que simboliza a solenidade etílica.

Claudio Cruz em uma foto%3A cerveja%2C Flamengo%2C Portela e Embaixadores da Folia%2C no Vaca Atolada. Ao fundo%2C a árvore da ‘ceia alcoólica’Luiz Ackermann / Agência O Dia

O lado biriteiro do dono do Vaca Atolada, que também é funcionário público, deu origem a outra ideia curiosa e carioquíssima: o Cotovelo da Fama, que ainda está em fase inicial. Afinal, se quem frequenta bar costuma apoiar o cotovelo sobre a mesa, por que não imortalizar algumas figuras marcantes da boemia carioca? Ainda mais na Lapa.

O multifuncional Rubem Confete inaugurou o projeto, que agora busca o cartunista Jaguar. “A gente só tem direito a ser alcoólatra anônimo. Anônimo por quê? As grandes fábricas do Rio de Janeiro são de cerveja. Vamos imortalizar as pessoas que viveram com essa característica carioca”, defende.

A paixão pelo samba, outro componente indispensável no Vaca Atolada, vem da infância. Filho de músicos, o boêmio recebia em casa nomes como Nelson Cavaquinho e Pixinguinha. Passou a admirar, durante a juventude, o célebre Paulo da Portela — negro, militante de esquerda, morador de Oswaldo Cruz e figura-símbolo da maior campeã do Carnaval carioca. E conviveu, ainda, com Candeia, outra lenda portelense.

“Ele era marrento. Só se humanizou mais quando tomou tiro e ficou paraplégico. Mas foi um dos maiores compositores da história, um monstro”, recorda. Claudio, um cara grandão e de fala empolgada, se define de maneira concisa. “Claudio Cruz é gente que faz... merda. Mas merda do bem.”

Nessa curiosa classificação, inclui a criação de um bar agitado, de um bloco de Carnaval e da mais expressiva torcida organizada do time de maior torcida do Rio. É muita história boa. Histórias contadas em ocasiões como a ceia alcoólica, que junta a fraternidade do Natal com a alegria do Carnaval.

Irreverência é a regra. Até no futebol

Provocador à moda antiga, o primeiro presidente da Raça Rubro-Negra tem o Vasco como alvo. Tanto que criou, em 1998, a Fla-Madrid, para torcer pelo Real Madrid contra o cruzmaltino no Mundial de Clubes. Tudo na paz, sempre.

“O samba tem muito a ensinar ao futebol. No samba, você vai com camiseta de uma escola à quadra de outra e agradecem sua presença. No futebol, te matam”, lamenta. Ao sair da Raça, no fim dos anos 1980, profetizou: “Haverá o dia em que a melhor torcida vai ser a que tiver o melhor calibre”.

O boêmio afirma ser o responsável por duas tradições das torcidas de futebol. A primeira, torcer em pé. A segunda, usar papel higiênico como adereço de festa na arquibancada. “Fui ao banheiro. Quando vi aqueles rolos, pensei: ‘Bicho, isso ficaria maneiro.’ Visualizei aquilo. Peguei seis rolos e jogamos quando o Flamengo entrou”. Deu certo.

Reportagem do estagiário Caio Sartori

Você pode gostar